Estevam de Moraes

Este blog terá a função de apresentar a biografia de Manoel Estevam de Moraes e oferecer espaço para que outras histórias, "causos" e fotos da família ESTEVAM DE MORAES possam ser postados e comentados no desejo de manter viva a memória desta família que marcou sua bela trajetória do Caboio à Liberdade, traduzindo-se num verdadeiro Álbum da Família ESTEVAM DE MORAES

sábado, dezembro 18, 2004

O Caboieiro do pé racahado

A saga do camponês e patriarca da família Estevam de Moraes - Na sua trajetória do Caboio à Liberdade

Roberto Moraes Pessanha
Dezembro de 2004


Dedicatória

à memória do meu saudoso pai Joemio Pessanha e à minha mãe Eliete, com os quais aprendi a admirar o principal personagem desta publicação.

Agradecimentos

Aos amigos e parentes listados ao longo desta publicação, em especial aos filhos Eliete, Edalmir, Emilton, Eloísa, Creusa, Carlinhos, aos netos, Adriano, Manoele e Rodrigo do nosso principal personagem que ajudaram das mais diferentes formas a compor a história objeto desta publicação;

A minha esposa Ilda M. Mayerhoffer Machado Pessanha pela contribuição nas sugestões e na revisão da presente publicação.


“A história é um filme; a geografia é um quadro desse filme. A sucessão dos quadros geográficos gera a evolução histórica” Everardo Bacckheuser (em O Brejo e o Homem – Alberto Lamego)

© Copyright by Roberto Moraes Pessanha

Ficha Técnica

Foto Principal – Capa Projeto Gráfico:
Manoele Pessanha Rangel Aluízio Nogueira S. Junior

Fotos:
Manoele Pessanha Rangel
Arquivo Pessoal

O Caboieiro do pé rachado: a saga do camponês e patriarca da família Estevam de Moraes na sua trajetória do Caboio à Liberdade. Roberto Moraes Pessanha – Campos dos Goyatacazes – 2004 – 98 p.

ISBN

Introdução. 2. A família que foi do Caboio à Liberdade. 3. Enchentes na Baixada. 4. Irmandade – características e convivência. 5. A última surra. 6. Estevam ou Estevão. 7. Açougue. 8. Filhos, netos e bisnetos. 9. A perda do filho. 10. Manuel compra, vende e negocia. 11. As grandes amizades. 12.A casa da Professor Faria. 13. A partilha. 14. Manuel do banco à beira da estrada aos almoços de domingo em família. 15. Religião. 16. A descrença atual com a agricultura, a política e o senso de justiça. 17. Vida com V maiúsculo. [S.N.]

CDD
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Índice
O Caboieiro do pé rachado
A saga do camponês e patriarca da família Estevam de Moraes
na sua trajetória do Caboio à Liberdade

Capítulos

1 – Introdução

2 – Estevam de Moraes - A família que foi do Caboio à Liberdade

3 – Enchentes na Baixada

4 – Irmandade – características e convivência

5 – A última surra

6 – Estevam ou Estevão

7 – Açougue

8 – Manuel compra, vende e negocia

9 – Filhos, netos e bisnetos

10 – A perda do filho

11 – As grandes amizades

12 – A casa da Professor Faria

13 – A partilha

14 – Manuel do banco à beira da estrada aos almoços de domingo em família

15 – Religião

16 - A descrença atual com a agricultura, a política e o senso de justiça

17 – Vida com V maiúsculo!

18 – Referências Bibliográficas







Introdução

O meu avô “Manel”

Caboieiro é o nome que se dá às pessoas que são naturais da famosa localidade e ex-enseada do Caboio na Baixada Campista. Não era uma identificação que fosse apreciada pelos seus nativos. Era considerado um termo pejorativo, ainda mais se viesse complementado pela referência às características dos pés de seus moradores – pé rachado - que identificava as conseqüências de se viver numa área de restinga e em constantes cheias. Na época, raramente se fazia uso de sapatos. A proteção mais comum, quando usados, eram os antigos tamancões. A expressão “Caboiero do pé rachado” utilizada como título principal desta publicação tem a intenção de homenagear o personagem central da história do camponês e patriarca da família “Estevam de Moraes”, em sua trajetória de vida que saiu do Caboio até à Liberdade. Liberdade é uma Fazenda de sua propriedade localizada no primeiro distrito do município de São Francisco do Itabapoana.

Esta publicação tentou reunir os principais fragmentos da vida de Manoel Estevam de Moraes. Pelo pouco que aqui está escrito é possível perceber que o personagem merece mesmo é uma biografia completa e bem escrita. Tem história e conteúdo para ser densa pelo que pensa, pelo que fez, pelo caráter e senso de justiça que norteou sua vida, pelo que representa e principalmente pela memória sem igual, que não se mantém intacta, porque a cada dia aumenta sua capacidade de registrar novos fatos e sentimentos. Seu pragmatismo diante da vida, não o fez uma pessoa sisuda e nem chata como costumam ser os pragmáticos. A objetividade com que sempre encarou os desafios da vida não o fez perder os sentimentos e a capacidade de olhar as boas ações do ser humano, assim como o lado bom da vida. Foi filho aliado, dedicado e reconhecido. Foi irmão camarada, generoso e fiel. Foi esposo e companheiro preocupado, um tanto rebelde, mas acima de tudo um excelente pai. É pai do apoio, da preocupação com o dia seguinte e principalmente do ombro, que consegue ainda hoje ser amigo ao mesmo tempo em que é crítico e duro nas cobranças.

Manoel Estevam merece uma biografia não porque é uma celebridade na concepção fútil que o termo ganhou na era globalizada, midiática e consumista. Manoel Estevam não é personagem da história oficial, que apenas registra os atos das autoridades e do espetáculo cruel da vida cotidiana escandalosa. Manoel Estevam merece uma biografia, que o autor destes fragmentos não tem competência para escrever, porque com os seus 93 anos é um personagem brasileiro íntegro, dedicado e empreendedor. Merecer ter detalhes de sua vida contados pelos desafios que enfrentou e pelos atalhos que foi obrigado a tomar. Merece ser reconhecido pela firme convicção com que conduziu por toda a sua vida e pela qual é reconhecido por todos que o conheceram ou mesmo que conhecem os seus descendentes. Por isso pode se dizer que construiu uma família na melhor acepção que esta palavra possa ter. Aliás, este talvez seja o seu único orgulho. Foi também reconhecido como pessoa que não cultuou a vaidade e nem muito menos as aparências, doença comum desde que o mundo é mundo.

Só foi a Campos pela primeira vez aos sete anos, foi retirado da escola por pressão do namorado da professora. A viagem que mudou a sua vida, do Caboio ao sertão de São Francisco foi feita em três diferentes meios de locomoção com duração de dois dias inteiros intercalados com hospedagem em Campos. Os negócios começaram no açougue na baixada e depois forram esticadas nas compras, vendas, realização de benfeitorias e plantações feitas nas propriedades rurais que possuiu no sertão. O lugar mais longe para onde viajou foi o Rio de Janeiro, onde morou a filha. Nunca teve vaidade de conhecer outros lugares por qualificar que nada é muito diferente de onde se vive. Há menos de cinco anos aceitou depois de muita insistência o convite do filho para conhecer a praia de Guarapari no Espírito Santo que três de seus filhos escolheram para veranear.

Na política acreditou em Getúlio Vargas e pelos mesmos motivos com que acreditou em Getúlio hoje é crítico das autoridades que julga roubarem demais. Acredita que as coisas evoluíram, acha interessante que hoje se tenha mais interesse em saber as coisas do passado do que antes. Percebe a complexidade da vida atual ao concluir: “a coisa hoje é ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil”.

Nas conversas que ajudaram a compor o material para este breve documentário, se reportou a si, como uma pessoa que muito lutou e se defendeu num único ponto: “eu não sou impertinente porque impertinente é aquele que fala, às vezes coisas erradas e depois contesta, mas eu aceito muito as opiniões”. Quem o conhece sabe que está dizendo a verdade quando diz que aceita opiniões, embora todos saibam que para convencê-lo é preciso ter argumentos fortes, pois é pessoa de formar convicções a partir de diversas informações que ouve e, portanto, não basta apresentar opiniões achando que duas conversas conseguirá ter o seu apoio ou aval para questões delicadas. Muitos em situações como esta, precisaram reunir pessoas e argumentos para convencê-lo. Nestes momentos também, não foi difícil vê-lo generoso em aceitar argumentos nem sempre muito convincente.

Particularmente posso me lembrar dos sábados, quando tinha por volta dos seis anos e morava no Turfe, quando quase que religiosamente me pegava em sua “Rural Wiliams” azul para ir ao salão de barbeiro de seu cunhado Natalino, no Beco, em frente ao campo de futebol do Santo Antônio. Lembro-me ainda, das canas caianas doces de doer a garganta, descascadas e cortadas com aquele facão de tamanho que apavorava ao menino da cidade. O cavalo selado para dar as primeiras voltas e arriscar um galope nas terras da Liberdade alcançada na velha DKW Vemaguete nos sábados de folga do trabalho de meu pai Joemio...

Por tudo isso e muito mais é que este autor, seu neto com orgulho, teve interesse e prazer em compor estes fragmentos de forma a deixar entre aqueles a quem considerou e foi considerado na vida, um registro de um homem que compôs uma Família com F maiúsculo. Família Estevam de Moraes.


São Francisco do Itabapoana, 16 de dezembro de 2004.
Aniversário de 93 anos de nascimento de Manoel Estevam de Moraes.

Seu neto,
Roberto Moraes Pessanha


Estevam de Moraes
A família que foi do Caboio à Liberdade

O local era a planície quaternária dos goytacazes, filha do Rio Paraíba que em épocas ainda mais remotas desaguava nos arredores do Cabo de São Tomé, próximo a Lagoa Feia, segundo Lamego Filho. A época, pouco mais de uma semana antes do natal de 1911. Em 16 de dezembro na estrada do Caboio na Baixada Campista na casa de Da. Marica Firmino nascia Manoel Estevam de Moraes, filho de José Estevam de Moraes e Umbelina Joaquina de Moraes. Era uma casa simples, mas de telhado moderno com telhas de cano, situada numa área de restinga envoltas em plantações nativas de pitanga que fazia divisa com as terras vizinhas a do fazendeiro João Siqueira, para onde depois sua família também se mudou, ainda morando de favor. Na verdade, foi chamado inicialmente de Manoel Gomes da Silva. Este seu primeiro nome foi absorvido do avô materno.

Campos que tinha a maioria dos seus 42 mil habitantes morando no interior, possuía à época, trinta usinas de açúcar, e tinha produzido no ano anterior, em 1910, quarenta e sete milhões de quilos de açúcar. Era uma época de muitas mudanças no município. Setenta e oito dias antes do seu nascimento no Caboio, foi realizada em Campos a 4ª Conferência Açucareira Nacional, instalada no dia 28 de setembro de 1911 (pg. 138 - 500 anos história), sob a presidência do governador Oliveira Botelho. Esta Conferência foi determinante nos destinos do município, gerando melhoramentos tais como, melhoramentos na captação d’água, canalização de mais de mil metros de redes de esgoto, construção de 500 metros de cais e obelisco na Beira Rio, arborização, alargamento e calçamento de ruas e ainda reformas feitas na usina elétrica que foram realizadas pela chamada Comissão de Saneamento. As verbas para estes feitos saíram da conferência que, em assembléia, ratificou a proposta do usineiro e lavrador Enéas de Castro, que defendeu que Campos para sair do atraso, deveria reter como taxa o percentual de 2,5% da venda do açúcar, a ser utilizado nestas melhorias.

Manoel Gomes da Silva era o pai de Umbelina de Moraes que na família era também chamada de Da. Bila. Para os netos e os bisnetos que não a conheceram, era lembrada como a Vovó Bila, que tinha duas irmãs chamadas legítimas (mesmo pai e mãe) e duas por parte de mãe. Era filha de Manoel Gomes da Silva. Tinha duas irmãs naturais cujo pai era Inácio Petronilha.

O sobrenome Estevam surgiu pela primeira vez quando nasceu o pai José. José Estevam de Moraes. O Estevam surgiu de um santo que sua mãe Francisca Maria da Penha, Da. Francisca, que era mãe solteira, viu no calendário do ano de 1989, mesmo ano em que o Brasil, logo depois da abolição da escravidão no ano anterior, proclamava a República no país.

Foi o primeiro filho do casamento entre José Estevam, chamado de Zeca Estevam e Da. Bila, filha de Manoel Gomes da Silva. Da. Bila morava na casa de Joaquim Siqueira irmão de João Siqueira que morava na mesma região em terras na direção de Ponta da Areia depois do Caboio. A família Siqueira, proprietária de terras vizinhas na região era composta de três irmãos: João, Joaquim e Manuel. Zeca Estevam morava com João Siqueira e Da. Bila com Joaquim Siqueira e esta proximidade fez com que se encontrassem casassem e tivessem treze filhos num intervalo de mais de vinte anos: Godoardo, Floriano, Valtrurdes, Joaquina, Waldemiro, Carmenzita, José, Francisco, Maria José, Francisca, Nadir e Arceles, nome que foi registrada no cartório embora a intenção de registro tenha sido Aricélia, a caçula também chamada de Ceinha. Em 2004, cinco se encontram vivos e com boa saúde, incluindo Manoel Estevão de Moraes, o filho mais velho.

Da. Bila, segundo os filhos e netos tinha uma descendência de índios que ainda não se conseguiu comprovar. Manuel sabe que ela era oriunda de Pureza localidade de São Fidélis de onde veio sua mãe e também o pai de suas irmãs naturais Inácio Petronilha. Ainda segundo Manuel, pela sua origem mais ao norte do município e ainda da proximidade da localidade onde viveu bons tempos, no sertão, manifestou desejo de ser enterrada em Travessão.

Um dos filhos legítimos de João Siqueira era considerado irmão de criação do seu pai Zeca Estevam e por isso chamado de Tio Silva por Manuel e os demais irmãos.

Morou no Caboio até os cinco anos de idade. Zeca Estevam seu pai era comerciante de secos e molhados: arroz, feijão, açúcar, carne-seca e álcool. Buscando mercado, Zeca com 27 anos, montou venda em diversas localidades da baixada. Poço Gordo, Estrada da Areia (São Sebastião), Alto do Eliseu, Mineiros, Olhos D´água (próximo ao Espinho) e Martins Lage. Nesta última localidade antes de retornar ao Caboio, morou inicialmente próximo à Beira do Rio Paraíba e depois próximo ao casarão dos Airises, um sobrado centenário com fachada de 45 metros, construído no início do século XIX por ordem do Comendador Cláudio de Couto e Souza, localizado na margem direita do rio Paraíba do Sul, a 7 km do centro da cidade. Em Martins Lage, nesta época funcionava a Usina de N. S. das Dores que se transformou em 1938 na Destilaria Jacques Richet que desde 1970 encerrou suas atividades, tendo os seus reservatórios de álcool utilizados um determinado a tempo, até que um incêndio acabou por decretar definitivamente o fim daquele empreendimento.

No interior do município pouca alteração acontecia, em contraste, com o que ocorria na área urbana da cidade, que vivia a euforia das inaugurações dos melhoramentos decorrentes das propostas aprovadas cinco anos antes na 4ª Conferência Nacional Açucareira. O evento teve a presença do governador do estado Nilo Peçanha e do presidente da República, Wenceslau Braz, que chegaram com esse fim ao município em 5 de novembro de 1916, às 7:30 da manhã na Estação do Saco. Daí seguiram para a usina Santa Cruz e de lá de vapor para a usina São João onde almoçaram. Durante todo o dia as autoridades inauguraram as obras e também oficialmente os serviços de bonde da cidade. O povo invadiu os quatro bondes que haviam chegado em 19 de setembro, sendo 3 para passageiros e 1 para transporte de carne verde e açúcar. As linhas que primeiro funcionaram foram a do Saco, Av. Pelinca e Formosa com passagem custando 200 réis.

A área urbana vivia na época um verdadeiro surto desenvolvimentista apoiado pelo alto preço do açúcar no mercado internacional, conseqüência da guerra que impedia a produção européia. Os cafés da cidade viviam cheios. A noite era animada pelos cafés High-Life, Rua 13 de Maio 63, Café Club, 13 de Maio 66, Padaria Francesa, Clube dos Políticos e havia ainda passeio em três vapores no Rio Paraíba. Companhias teatrais vinham de turnês no Rio e São Paulo para apresentações. Regatas, corridas de cavalos, bailes nos clubes, etc. Tudo isso contrastava com a grande pobreza em que vivia a maior parte da população, nas áreas mais distantes do centro e em algumas áreas do interior do município, que possuía na época 153 mil habitantes.

Enquanto isso, na baixada a vida para o chefe da família Zeca Estevam era difícil na sua atividade de venda de secos e molhados. Seu irmão do meio, de nome igual ao do pai José Estevam, o mais louro de todos, que por isso é conhecido de muitos como Zé Russo, gosta de lembrar que as pessoas na época diziam que o pai andava tanto que as galinhas poedeiras e já conhecidas, quando ouviam falar de mudança e viam chegar o carro de boi, elas corriam, se deitavam e levantavam as patas para serem peadas e levadas penduradas nas extremidades do carro de boi. Zeca ficava pouco tempo na maioria destes lugares, era mais o tempo de conhecer, fazer alguns negócios iniciais e avaliar que a venda de secos e molhados não era uma boa opção para aquela praça e seguia adiante feito um mascate, só que acompanhado da família e dos seus pertences. A vida prosseguia. Outros filhos iam chegando para fazer companhia a Manoel. Entre 1916 e 1921, dos cinco até os dez anos, Manoel, junto com os irmãos Godoardo, Floriano e Valtrudes, a filha que nasceu durante este “rodeio”, acompanhou os pais nesta andança pela baixada até retornar ao Caboio em 1921.

Antes de retornar ao Caboio se lembra de duas passagens. A primeira vez que foi a Campos na área urbana do município já estava com sete anos. De carro de boi, seguiu com o pai e alguns camaradas para levar encomendas no mercado central que funcionava, próximo onde é hoje a Faculdade de Direito de Campos, nas esquinas das Ruas Formosa ou Tenente Cel. Cardoso, com a Rua dos Andradas, onde se forma uma espécie de Largo. Ali funcionou durante quase cem anos o mercado da cidade.

A segunda ida a Campos se deu aproximadamente um ano e meio depois, estava com oito anos e se passava o ano de 1919. Moravam em Martins Lage, última parada antes de retornar ao Caboio. Teve um problema no dente na arcada inferior que inflamou e precisou ser socorrido na cidade. O pai Zeca Estevam, acordou cedo depois do café, caminhou com ele pela linha do trem até depois de Goiabal, na estrada que margeia o Rio Paraíba e liga Campos à cidade de São João da Barra, chegou próximo ao Matadouro da cidade e pegou o bonde, que ainda era uma novidade no transporte, até o centro da cidade. Manuel se recorda deste tempo: “eu tive um problema no dente, meu queixo inchou veio a furo, nessa época já estava em Martins Lage, quando eu vim a Campos, saí lá do lado do sobrado do Airises, vim por cima da linha ao lado do Paraíba, andei um pedaço grande no Goiabal, rompi o Matadouro e tinha uma parada do bonde. Papai mandou o alfaiate na Rua Santos Dumont fazer meu primeiro terninho de calça comprida aos sete oito anos. Estávamos no meio da viagem de papai. Era viagem que não levava muito tempo nos lugares. Abria venda nos lugares, mas não dava certo, naquele tempo era um negócio muito diferente de hoje, era muita pobreza”.

Prossegue lembrando da sua primeira história com o sexo oposto: “nesta época eu não tinha ido à escola. A escola que eu entrei e depois saí, foi depois que fizemos este rodeio todo e voltamos para o Caboio de novo. Não fiquei nem um mês na escola. Quando fui para a escola não sabia escrever, só sabia era a,b... Eu defendia a professora que namorava um rapaz filho de Manuel Pedro, que chamava Benedito Pedro. Por causa disso ele zangou e deixou de namorar a professora e foi namorar uma filha de Helinho Manhães lá perto de Olhos D’ água e acabou casando com esta menina. Era um homem complicado e tocador de violão. Você sabe que depois que casou ele matou a mulher e jogou dentro da cacimba. Este homem sumiu e até hoje ninguém sabe para onde ele foi depois que ele fez este crime. Porque o pai da mulher, um homem valentão... O pai do homem era Manuel Pedro era rezador, era capelão. Morava vizinho de Gildo Cebola, lá perto de Tio Silva, numa curva que vai para Olhos D’água entre Correnteza e Pitangueira”.

Nesta época, com idade já considerada apropriada, passou a ajudar na roça. Trabalhou na enxada ao mesmo tempo em que caçava passarinho e montava arapuca para pegar preá que era comida assada. Tecido na época era coisa rara. O que se usava era o pano que vinha junto da carne-seca para ser vendida que era lavada e do qual se confeccionava calça, camisa, vestido e saia. Algum tempo depois é que surgiu uma capa que se usava em tempos mais frios ou de chuva, a capa gaúcha.

Até 1924 essa era a vida no Caboio. Em 1924 houve uma grande enchente nas margens da Lagoa Feia, colocando debaixo d’água a maioria das localidades da baixada, que como o nome diz, por ser um terreno baixo nas proximidades da maior lagoa do estado que chegou a ter 200 Km de extensão, na época das chuvas seguidas alagava toda a região. O Caboio embaixo d’água tinha apenas alguns pontos mais altos que não eram alcançados pelas águas que cada vez mais buscava áreas para tomar conta. Zeca Machado, esposa e filhos se refugiaram num local mais alto, já chamado de ilha onde Tio Silva, considerado pai adotivo de Manuel morava. Neste local havia sido um engenho. Ali se acomodavam as pessoas que só chegavam de barco ou canoa. Não tinha jeito com as grandes chuvas todo mundo ficava ilhado junto com porco, galinha...

Logo após esta grande enchente e antes ainda de se mudarem para outro ponto da baixada se recorda do grande alvoroço que foi o sobrevôo na baixada do dirigível Zepelin. Os animais se espantaram, as crianças corriam não menos alvoroçadas e os adultos começavam a considerar que os tempos estavam mudados, a modernidade já permitia ao homem viver como um passarinho. A primeira guerra havia terminado há oito anos, mas o homem vivia aprontando. Manuel cuja relação com a altitude era a de caçar pássaros para levar para alimentação, sentiu que o ser humano ainda aprontaria muitas peripécias pelo mundo afora.

Em 1925 a família se deslocou para Campo Novo, vizinho da Lagoa de Saquarema, na Fazenda Cabaceiro próximo a Venda Nova. Ali, Antônio Abreu Rangel possuía uma grande casa de comércio, onde se vendia de tudo, secos e molhados. Antônio Abreu era o maior vendedor da baixada. Interessante que hoje, nesta localidade, está instalada a sede do grupo Super Bom, que ali possui um grande atacado de alimentos e abastece a rede de cinco supermercados que os irmãos Joílson e Licínio hoje possuem em Campos. Antônio Abreu era casado com Da. Cota, irmã de Dr. Crespo, um importante e conhecido médico falecido em 1967. Depois que saiu da baixada o comerciante se instalou no centro da cidade de Campos com uma grande loja de ferragens.

Casou-se em 14 de maio de 1932 com Doralice Ribeiro de Azeredo, que tinha registro de nascimento em 17 de fevereiro de 1907 (esta não era a data em que comemorava seu aniversário, que se dava em 2 de fevereiro; também consta que o ano seria 1906 e não 1907, onde teria 5 anos e 10 meses a mais do que o esposo Manoel), era filha de José Barbosa de Azeredo e Mariana Ribeiro de Azeredo. Com o casamento passou a adotar o nome de Doralice de Azeredo Moraes e passou a ser conhecida e chamada por Da. Dora. O casamento se deu em ato celebrado pelo Juiz de Paz, Antônio Joaquim Ribeiro da Silva e Oficial do Registro Civil, Francisco Ribeiro do Rosário e Escrivão de Paz, Roberto Ribeiro de Souza, registro certificado nas folhas 152 e 153 do livro 1-“B” do arquivo que se acha lavrado sob o número 163 do Cartório do Registro Civil do 4° Distrito do Município de Campos, RJ, Vila São Sebastião.

Ainda em 1932, com 21 anos de idade, já casado, mudou-se para a estrada da Canema, próximo ao distrito de Goitacazes, onde quatro meses depois, nasceu o primeiro dos seus oito filhos. Foi uma menina, cujo nome foi escolhido por Da. Dora e passou a ser o primeiro dos seus seis filhos onde todos teriam os nomes começados pela letra “E”. Emilse Azeredo de Moraes nasceu em 30 de setembro de 1932 e foi registrada apenas em 30 setembro de 1933. Desde Campo Novo, onde morava com o pai na fazenda denominada “Cabaceiro” trabalhava pesado na lavoura e passou a comercializar carne através de um açougue.

Tinha boa relação com o sogro, Juca Azeredo que logo após seu casamento, adoeceu e veio a falecer dois anos depois. Juca Azeredo ainda antes de morrer deu a benção ao segundo filho, Ecival de Azeredo Moraes que nasceu em 21 de outubro de 1934. Agora com dois filhos pequenos para criar, continuou as atividades de comércio de carne. O velho Juca deixou herança em dinheiro emprestado a Sinhozinho Ferreira. A quantia de 20 contos gerava juros pagos anualmente por Sinhozinho. O pai Zeca Estevam, já com 43 anos, com 12 filhos estava pendurado e em condições financeiras apertadas. Por conta da situação, percebeu que precisava intervir. Procurou a sogra, Dona Mariana, e pediu um adiantamento do que seria a parte do casal na herança de Juca Azeredo. Dona Mariana não criou dificuldades e autorizou que a parcela dos juros paga por Sinhozinho Ferreira na quantia de 500.000 réis seria adiantada para que o comércio de carne através de um açougue fosse montado. Como parte do acordo o açougue foi montado em sociedade com o cunhado Amaro Azeredo.

Amaro, além de duplo cunhado e grande amigo se tornou também compadre, ao batizar seu primeiro filho Ecival de Azeredo Moraes. Gosta de lembrar do amigo de adolescência e juventude. Uma das lembranças, além das demoras, que normalmente provocava nas entregas das carnes encomendadas pelos fregueses, era de um baile que foram juntos na Usina do Taí, em Beira do Taí, em 1929, quando tinha dezoito anos. Quando chegavam ao baile houve uma confusão entre os porteiros e o compadre, por causa da cobrança da cota (bilhete) para dançar no baile. O desentendimento cresceu o compadre correu e teve que fazer o mesmo. A correria se deu por uma distância de quase 500 braças (1 braça = 2,20 m). Manoel continua zoar do compadre ao relatar que o compadre ao correr com as calças com as pontas muito largas batendo no mato, eram os perseguidores que o estavam alcançando e quanto mais corria, mais as calças batiam no mato e vice-versa até chegar na casa dos pais na fazenda Cabaceiro em Saquarema Grande ou Campo Novo.

Na área urbana a catedral está em construção com planta do conhecido arquiteto Gastão Bahiana da Escola Nacional de Belas Artes. O prefeito é Luiz Sobral. Operários da Comissão de Saneamento entram em greve e a Associação Comercial faz comício contra aumento de impostos de valorização. Em outubro alastra-se o movimento revolucionário especialmente em Minas e Rio Grande do Sul. Em 9 de outubro os reservistas são convocados e chegam a Campos tropas da polícia do estado, comandadas por oficiais do exército.

Nesta ocasião, se recorda de um outro episódio junto com o compadre Amaro Azeredo e o outro cunhado Canico, também irmão da esposa Da. Dora. Segundo ele na noite que arrebentou a revolução, apareceu na região gente interessada em arrebanhar jovens para fazer número e enfrentar a passeata de revolucionários que vinham de Minas Gerais contra o estado do Rio de Janeiro. Para fugir desta chamada os três se esconderam nos canaviais da fazenda Cabaceiro em Campo Novo. Manuel Estevam lembra que naquela época a polícia empunha respeito. Era comum as pessoas ao verem a polícia, mesmo sem nenhum motivo, se esconderem no canavial e evitar o contato direto. Provavelmente não fosse só o respeito à autoridade e sim atos de autoritarismo, que passavam para a sociedade o medo que é diferente do respeito que as autoridades precisam e devem ter. Também há que se lembrar que em 1930, vivia-se uma época conturbada. A crise econômica é percebida também na cidade.

Dava-se bem com os cunhados. Aliás, embora sistemático nas suas coisas e no seu jeito de ver o mundo e os negócios, sempre foi pessoa de relacionamento farto e de prosa cumprida. Aprendeu cedo, não se sabe de quem e nem como, que a conversa era uma forma de conhecer as pessoas, o jeito, a visão das coisas, os valores e até o caráter. Não estudou psicologia, muito menos psicanálise e nem nunca ouviu falar de Freud e seu divã, e nem sabe o que isto significa, mas tem, como poucos, a habilidade de reconhecer as pessoas pelo que elas falam ou deixam de falar.

Neste contato mais próximo dos cunhados depois da morte do sogro Juca Azeredo, além de propor o adiantamento da parte da herança da esposa Da. Dora para superar algumas dificuldades, se incumbiu de chamar e reunir os cunhados para repartir as reses da herança do sogro. Pediu que eles escolhessem a parte de cada um na metade que cabia aos filhos e ficou com a sua parte na sobra. Não passou de duas cabeças para cada herdeiro. Tanto em Campo Novo quanto na Canema, assim começou a se iniciar no negócio da criação de gado.

No ano do centenário de Campos, 1935, quando era prefeito da cidade o engenheiro Francisco da Costa Nunes, interventor nomeado pelo interventor federal no estado do Rio de Janeiro, o Almirante Ari Parreiras. O Sr. Costa Nunes substituiu o Dr. Silvio Bastos Tavares. Nesta época, o Sr. Anorelino Honório Gomes, conhecido como Sr. Didino, amigo da família convidou Sr. Zeca Estevam para conhecer algumas propriedades e terras no então sertão de São João da Barra. Entre elas conheceram a “Liberdade”, uma propriedade nas mediações de Morro Alegre e Santa Rita. Sr. Didino condicionou a compra da propriedade com todas benfeitorias ao aceite de Zeca Estevam ao seu convite para tocar a propriedade.

Por quatorze contos Sr. Didino fechou negócio com a Liberdade, que na ocasião possuía 20 alqueires. Na época, nesta região próxima a São Francisco de Paula, que depois viria a se transformar no município de São Francisco do Itabapoana, dez alqueires de terra valia o equivalente a 5 contos (1 conto = 1.000 réis). Ainda em 1935 Zeca Estevam leva a família rumo ao norte do estado, no sertão são joanense.

Na época das cheias, logo depois do dia de finados, nasce o terceiro filho, a segunda mulher que foi registrada como Eliete de Azeredo Moraes. Na Canema em meios aos embaraços Da. Dora dava conta dos três filhos em idades seguidas, com diferenças de um ou dois anos entre eles e ainda ajudava Manoel nos afazeres do açougue. Da. Dora nunca foi de reclamar da vida, enfrentava com vigor, disposição e coragem os desafios que a vida ia colocando adiante. Mais velha que Manoel, mais alta, de atitudes fortes e decisivas não se amedrontava e sempre estimulava Manoel na busca de objetivos.

O ano de 1937 nasce com novas perspectivas para a família Estevam de Moraes. O jornal “A Folha do Comércio”, fundada há dez anos por José Bruno de Azevedo parecia divulgar o sentimento que passava em Manoel Estevam e sua esposa Da. Dora, em busca de novos espaços, amizades, trabalho e conforto para a família. O editorial do dia 1 de janeiro de 1937 publicou: ”Anno Novo! Entramos hoje, trunphalmente, no anno de 1937! Vencemos mais uma etapa da vida, o que deve ser motivo de alegria, de gratidão e graças a Deus. Não devemos desdenhar dos dias que passaram, porque já passaram. Se dissabores experimentamos, durante os 365 dias de 1936, muito nos sirviram elles como licções na escola de experiência. Não esteja triste o pobre porque não poude esperar o 1937 com uma lauta ceia regada de bons vinhos, ou porque não se nivelou à sociedade que passou a noite de S. Silvestre num fini “reveillon”. Estejamos todos alegres, porque o Todo-Poderoso nos proporcionou pisar com vida o limiar de 1937, e peçamos a Elle animo bastante para utilizar na phase que hoje se inicia, as lições que nos deixaram as lutas do anno que findou. Esperamos viver o Anno Novo melhor que o anno velho, procurando o nosso aperfeiçoamento nos factos que se succedem. Os votos de Feliz Anno Novo da “Folha do Commércio” ao povo, imprensa, às classes commercial, industrial, agrícola e a todas às demais que aqui trabalham e se esforçam pelo nosso progresso em qualquer sentido”.

Foi neste espírito que no final de janeiro, em acordo com Sr. Didino rumou também para o sertão. Era época de chuvas, como todo o final e início de ano. A baixada sempre sofreu muito com as cheias neste período. Era originalmente uma área de restinga, brejos, irrigadas por canais naturais e córregos tendo ainda ao lado, próximo à divisa com Macaé (Carapebus e Quissamã eram seus distritos) a magnífica Lagoa Feia com seus 200 Km de superfície.

Na Canema em janeiro de 1937, que como Manoel Estevam define constituía uma única região ligando Poço Gordo, Campo Novo, Saquarema Pequena e Saquarema Grande, a cheia alagou toda a região. Para sair de casa só de barco. Foi desta forma que às sete da manhã, compadre Amaro chegou até a porta da cozinha e pouco a pouco os móveis foram sendo tirados de dentro de casa. Da. Dora com Eliete ao colo já tinha juntado toda a roupa de cama e as poucas roupas pessoais numa única trouxa. Os móveis também eram poucos a mesa, algumas cadeiras, os bancos da cozinha, um pequeno sofá e os armários que guardavam os utensílios de cozinha. Compadre Amaro ajudou a fazer o carreto. Levou a canoa até a Lagoa de Saquarema, entrou na vala (canal) até chegar a linha de trem. Daí a mudança foi passada para o “troley” que foi colocado em cima da linha e rumou até a balança em Poço Gordo, onde o caminhão, um fordezinho, contratado por 50.000 réis aguardava para fazer o transporte até o sertão de São João da Barra.

Chovia uma chuva fina, o tempo era quente e úmido. Compadre Amaro junto com o motorista do caminhão tiram a mudança do troley e levar para cima do caminhão. Quando saíram no caminhão já havia passado das duas horas da tarde. Já não havia mais chance do trajeto ser cumprido antes de anoitecer. A estrada tanto de Poço Gordo até Campos como a do sertão estava muito prejudicada pelas chuvas que praticamente há quarenta dias caía na região.

O jeito foi se socorrer na casa de Sr. Didino no Turfe Clube. Ele morava próximo ao Cine São José, onde hoje é a Rua João Maria. Como sempre muito atencioso e gentil Sr. Didino, recebeu-os com grande satisfação. A noite já se iniciava, acomodou todos na garagem ofereceu uma alimentação e logo após esticarem as esteiras Manoel, Da. Dora, os filhos Ecival, Emilse e Eliete, mais o motorista foram dormir para enfrentar a jornada longa do dia seguinte.

Junto com a mudança vieram ainda meia dúzia de reses que fariam parte em negócios do futuro fazendeiro Manoel Estevam de Moraes. No dia seguinte antes de amanhecer, todos já estavam a postos para a segunda e última etapa de uma viagem, que na distância total não passava de setenta quilômetros, mas que para a época, com as estradas em péssimas condições eram de difícil acesso. Ao final da tarde chegaram na Liberdade.

As crianças pularam do caminhão para conhecer o novo espaço de moradia. Tudo era novidade. Os dois mais velhos, Emilse e Ecival com quatro e cinco anos estavam eufóricos e logo correram para o campo. Da. Dora, com Da. Eliete no colo caminhou até a casa dos sogros onde ficaria pelos próximos meses até ter o seu próprio espaço para morar e cuidar dos filhos. Da. Dora era uma mulher determinada e trabalhadeira e logo foi ajeitando as coisas.

Não demorou muito para Manoel procurar o seu espaço na Liberdade. A casa dividida com o pai Zeca Estevam era pequena e desejava ter o seu próprio espaço. Passou alguns dias e procurou Sr. Didino e logo conseguiu autorização para a construção de uma casa de palha em local acima do curral. Com os 3,5 contos que havia juntado no trabalho no comércio de carne na baixada, pagou o transporte para o sertão, separou 250.000 réis para a construção da casa e ainda comprou por 3 contos a propriedade de Cabo Verde em Morro Alegre, distante cinco quilômetros da Liberdade. Sr. Didino, mostrando que era mais que parceiro de negócios, foi mais adiante. Ofereceu ao filho do amigo, que se tornara também seu amigo a cessão de uma rês para ajudar no pagamento de parte da mão de obra para a construção da casa. Sr. Didino foi uma pessoa especial diz Manoel.

Tempo de trabalho duro. Primeiro montou um novo açougue em prédio em frente à Liberdade. Em paralelo a isso, trabalhava em Cabo Verde comandava a turma que trabalhava na machadinha preparando o pasto onde colocaria as reses que trouxe da baixada e outras que iam entrando no negócio de carnes. Assim foi iniciando sua criação, enquanto abatia gado para vender ao mesmo tempo em que ajudava o pai no trabalho na Fazenda Liberdade de vinte alqueires.

Da capina do pasto ao corte de gado foram se somando outras atribuições. A cavalo rodava a região. Fazia negócios, comprava, vendia, conhecia novas pessoas e também se tornava conhecido. O trabalho era pesado. Saía cedo, noite ainda para acompanhar as machadinhas do pessoal que preparava as terras em Boa Vista, acima de Morro Alegre. Muitas vezes dormia nestes locais para não ter que voltar todos os dias. Com a longa distância percorrida e o trabalho pesado ao longo do dia, não era raro o dia que dormia em cima do cavalo a trote pequeno em direção à Liberdade. Quando chegava exausto, muitas vezes não suportava o cansaço e era Da. Dora quem dava banho no cavalo tirava a sela e colocava o animal para pastar, enquanto tomava banho e muitas vezes dormia antes mesmo de se alimentar. Outro dia, cedo e a jornada prosseguia com o mesmo vigor assumindo novos compromissos e correndo o dia inteiro para conseguir cumprir.

Os filhos cresciam. O quarto filho estava a caminho. Em 28 de outubro de 1939 nasceu Edalmir Estevão de Moraes, mais um filho com o nome iniciado em “E” por decisão de Da. Dora que depois dos dois primeiros assegurou que todos os filhos teriam esta marca.

Três anos se foram, junto com a década de trinta. Os anos quarenta se descortinaram com mais promessas de trabalho. Enquanto isso na Europa e na Ásia a segunda grande guerra prosseguiam em batalhas mortíferas. A Inglaterra é bombardeada sem piedade com Churchil, o primeiro ministro inglês resistindo como podia. Em Campos o prefeito é Mário Mota que a exemplo dos últimos prefeitos continua a reclamar da luz em Campos. Outras obras são iniciadas: prolongamento da Rua Sete e novo calçamento na Praça São Salvador. Aumenta a circulação de carros de boi na cidade vendendo lenha, a Santa Casa está em obras e começa uma grande campanha para o uso de cheque que, como era de se esperar, causa grande resistência com a população dizendo que não correria o risco de trocar o dinheiro por um papel qualquer. Como já havia sido dito pelo usineiro Jorge Pereira Pinto quando do auge da primeira guerra: “o açúcar é a indústria da guerra, só dá lucro quando o mundo se destrói nas guerras”. Ao iniciar a segunda grande guerra novamente se esperava que as coisas pudessem melhorar para Campos, com o aumento da exportação de açúcar junto do aumento dos seus preços. O sentimento era de que novamente a guerra no mundo traria progresso e desenvolvimento para o estado que ainda era o maior produtor de açúcar do país, seguido de São Paulo que nesta época alcançara a segunda posição de produtor do país.

No sertão, a plantação que ganha destaque era de mandioca. Manoel Estevam beirando os trinta anos de idade vai assumindo posição de comando nos negócios ainda junto com o pai Zeca Estevam que com cinqüenta anos vai cada vez mais cedendo espaço para a ação do filho primogênito.

O pai que veio para o sertão num misto de empregado e meeiro de Sr. Didino, logo, por insistência deste, arrendou em 1940 a Fazenda Liberdade por um período de sete anos. Ele tomava conta da propriedade, se encarregava da plantação de mandioca e também fazia farinha com a bolandeira existente na propriedade. Logo após o arrendamento, em 1941 Sr. Didino quis vender a propriedade para fazer outros negócios. Seu pai Zeca logo afirmou que não tinha interesse em compra de terra. Manuel então pediu licença ao pai para entrar no negócio. Daí surgiram as negociações com o Sr. Didino que não se interessou em pegar a Fazenda Saquarema na baixada e acabou por fazer opção nas negociações para ficar com a Fazenda Brejo dos Patos e outra parte em dinheiro para finalmente ceder a Liberdade. Manuel manteve com o pai todos os entendimentos já fechados do Sr. Didino com o pai e desta forma o arrendamento se manteve até 1948. Porém, neste período já pegou junto com o pai para fazer dinheiro e desta forma cumprir os compromissos financeiros assumidos.

Para aumentar a capacidade de produção, ao invés de contratar pessoal para o plantio de mandioca, faz opção pela divisão pela “meia“, ou seja, cede a terra para um terceiro plantar em troca da divisão dos resultados. Nesta época chegou a ter mais de dez meeiros nas terras da Liberdade. O resultado era bom e não precisava acompanhar de perto, pois, o resultado da produção era mais interesse para quem plantava até do que ele, como cedente da terra. Isso permitia continuar a rodar, fazer novos negócios e olhar outras oportunidades.

Uma decisão de Getúlio Vargas em 1937, exposta no Decreto Lei N° 26 de 30 de novembro de 1937, determinando que toda farinha de trigo usada no país para panificação teria que ter obrigatoriamente a adição de 30% de fécula, ou farinha obtida, de produto nacional conhecida como farinha de mandioca, trouxe grande perspectivas para a região do sertão sanjoanense. Na seqüência desta decisão estava o interesse do Barão Ludwig Kummer, chamado na área de Barão de Tipity, em construir a Tipity Indústrias de Mandioca Ltda. No dia 19 de agosto de 1939, depois de uma viagem de 11 horas de Campos até Barra do Itabapoana o Barão assinou o contrato de construção de Tipity cujo projeto previa a produção de 10.000 toneladas ou 200.000 sacas de farinha panificável por ano, consumindo 33 mil toneladas de raízes de mandioca no valor de 2.000 contos de réis. Quando Tipity começou a funcionar demandando a produção de toda a região a tonelada de mandioca que era vendida a 20 mil réis a tonelada, passou a 25, 32 e depois a 40 mil réis a tonelada. Os mais de dez caminhões da marca “Internacional” que o barão mandou vir da Alemanha cruzavam todo o sertão apanhando na própria plantação a mandioca plantada pelo produtor.
A situação de Manuel Estevam teve nesta época grande impulso. Sentiu que tinha acertado em deixar a baixada e se dirigir ao sertão. Junto com a fábrica de Tipity outras melhorias estavam previstas no seu rastro. Construção da estrada de rodagem de 80 Km da Barra até Campos, trechos de estrada de ferro para ajudar no transporte da matéria prima e do produto acabado. O início da produção industrial de Tipity se deu em janeiro de 1940. No final deste mesmo ano Tipity já produzia 16.000 sacas de farinha panificável num só mês. Mais adiante esta produção chegou a até 21.280 sacas por mês. Calcula-se que na época mais de 3.000 pessoas passaram a depender direta ou indiretamente da produção de Tipity.

A instalação do Complexo Tipity no sertão fez explodir a demanda por mandioca. Os caminhões e o pessoal do Barão se responsabilizava com a retirada e o transporte da mandioca. O produtor precisava apenas cuidar da produção. Nesta época chegou a ter 15 meeiros tocando plantações de mandioca em suas terras. Os negócios começavam a prosperar e em 1941, com trinta anos, Manoel Estevam começava a ser conhecido e a ter algum crédito e com isso os negócios ficavam mais fáceis. Ousava, arriscava e com o tino aguçado para os negócios seguia crescendo. Nesta época ganha respeito também comunitário a ponto de ser convidado pelo Dr. Ernane Carvalho, Delegado de Campos, para ser o 2° Sub-delegado do sertão, cargo não remunerado, de apoio ao Sub-delegado, Antônio de Oliveira Rangel, cuja alcunha era Miquilista, seu amigo particular. Também na época compra de segunda mão seu primeiro carro, um Ford 1929.

Enchentes na Baixada
Lagoas e restingas – A realidade da baixada
O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
(Sobradinho - Sá & Guarabira)

Manoel Estevam quando indagado se tinha presenciado em criança ou mesmo na adolescência ou juventude a presença de animais ferozes, foi logo afirmando que não, lembrando ainda que a baixada não era lugar de floresta e sim de restingas, matos pequenos e rasteiros. Sempre se reportou a este período da infância, como sendo de convivência com as águas, não só pelas enchentes freqüentes, mas pela existência de diversas lagoas, córregos, canais ou caminhos d’água, como eram mais comumente chamados.

Lamego na sua publicação “O homem e o brejo” se reporta a esta região dizendo: “nas grandes cheias as lagoas maiores se desafogam pelas menores. Há uniões imprevistas, travessias inundadas, caminhos barrados. Lagoas completamente chupadas pela canícula e pelos ventos enchem-se novamente de vida com a plenitude líquida que revivesce tudo. Campos de capim e areia onde os bebedouros para o gado tinham de ser cavados transformam-se em mananciais piscosos”.

Entre as histórias das grandes enchentes fica marcado a que enfrentou quando em 1937 organizava as coisas para zarpar para o “alto sertão sanjoanense”: “foi final de ano, época de cheia, Eliete tinha poucos meses. Foi enchente de Lagoa quando estava indo para a Liberdade. A enchente pegou na Canema, porque a Canema era lugar baixo, pegou a região da lagoa de Taí pequeno que enchia muito até Taí Grande, na Beira do Taí, depois rompe em Palacete, depois tem outra lagoa. Essa enchente não atingiu o Caboio. A enchente do Caboio foi em 1924 quando fomos morar em Saquarema na fazenda Cabaceiro. Eu estava com 13 anos. As enchentes lá não precisavam ser enchente do Paraíba não, porque quando a Lagoa Feia enchia com as entradas e saídas d’água, dava a enchente era como essa de Saquarema.

Na enchente da mudança nós saímos de canoa que foi até a porta da cozinha para reirar as coisas de casa. A canoa saiu de lá passou em Saquarema Pequena e foi até a linha nos fundos da Usina de Poço Gordo. Saquarema Grande era a frente do sítio de Juca Azeredo em Campo Novo e fazia fundo com Saquarema Pequeno. Tinha um cordão no alto que era a propriedade. O fim destas restingas e lagoas foi depois que eu tinha vindo para o sertão. No Cabaceiro tinha uma ponte num córrego onde vinha água da lagoa pequena para a lagoa grande, um córrego largo d´água, depois que eu saí de lá eles dragaram o valão que começa em Saquarema Pequena rompe Saquarema Grande, sai em Campo Novo para sair no Rio Paraíba no canal depois de Barcelo, o canal de Quintiguta, eu ouvi que eles estavam dragando novamente depois que eu saí de lá eles dragaram o valão que começa em Saquarema Pequena rompe Saquarema Grande, sai em Campo Novo para sair no Rio Paraíba no canal depois de Barcelo, o canal de Quintiguta, eu ouvi que eles estavam dragando novamente”.

Os recursos hídricos são descritos com constância por Manuel Estevam quando se refere ao período que viveu na baixada. Entre outros casos se recorda quando possuía quase dez anos, sua mãe Da. Bila determinou que fosse até a propriedade do vizinho mais próximo pegar um pouco de açúcar para temperar o café. Para atender a determinação da mãe teve que atravessar a nado a lagoa até chegar à casa do vizinho. Também se reporta a brincadeiras acompanhados do irmão Godô ou Floriano em mananciais de córregos e ou lagoas. As dificuldades dos períodos das cheias, dezembro ao final de março, já eram aguardadas, embora surpresas fossem sempre aguardadas, neste espaço espalhado entre o Paraíba e Ururaí, onde as águas e seus caminhos, “talqualmente” os animais peçonhentos, buscavam refúgios obedecendo a lei maior da gravidade.

Ainda segundo Lamego Filho, a diferença de altura, de aproximadamente oito metros, entre o Rio Paraíba e a Lagoa Feia, os dois principais estuários das águas da região, acentuavam o derramamento entre eles das águas, especialmente, no período das cheias, onde o leito do Paraíba não suportava o volume das águas que corriam desde o nascedouro do Paraíba. “Com tal desnível o rio invadia a margem meridional, inundando a mais zona rica de lavoura e de maior densidade demográfica com enormes prejuízos... dessa fase de transbordamentos do rio sobre a margem direita, vários são os testemunhos de caminhos d’água, divagantes para a Lagoa Feia ou para suleste, em busca de embocaduras do primeiro delta. Ao longo destes velhos braços há inúmeras lagoas, hoje quase todas secas com o saneamento, reduzidas a pastagens ou cobertas de canaviais ”.

A referência de Manuel Estevam à Lagoa Feia é assemelhada a que o nordestino ribeirinho do “velho Chico” faz ao rio de grandes proporções. Há um misto de sentimento de respeito e de admiração ao citar a Lagoa e seus predicados. A pujança da Lagoa Feia na descrição de Lamego não inibe a citação às diversas outras lagoas: Campelo, Taí Pequeno e Taí Grande, Suçunga ou Sussunga, da Carioca, Tambor, Abobreiras, Conchas, Goiaba e Coqueiros... A relação é grande e Lamego descreve a seqüência em direção ao delta formado pelo Rio Ururaí na sua foz da seguinte maneira: “Um dos mais conspícuos braços do novo delta é o que vindo das proximidades de Campos, passa nas fazendas São Martinho e Goiabal e atravessa em Airises a Lagoa do Peru, indo a seguir, pelo córrego Tingidouro à Lagoa do Mergulhão e daí as de Cambaíba, Saquarema e Saquarema Pequena. Desta, pelo valão da Mata vai à Lagoa dos Jacarés que verte para a Lagoa de Bananeiras, a qual através de caminhos d”água, se liga às planícies rasas num lacustre emaranhado em que se destacam os lagos do Capim, Mulaco, Pau Grande e Brejo Riscado”.

O solo da baixada na época, constituído de argila escura tinha origem nos encharcamento de elementos vegetais lacustres. Lamego insinua uma antiga ligação do delta do Paraíba à região do Cabo de São Tomé, sendo depois, estabelecido apenas em Atafona. Olhando o mapa em anexo não é difícil imaginar os caminhos d’àgua entrelaçando toda a região da Lagoa da Ribeira, em Quissamã, passando pela chamada Enseada do Tatu, Lagoa de Dentro, Lagoa Feia e a Enseado do Cabôio, Laguna de São Tomé com a Lagoa do Mulaco, Lagoa Salgada, Lagoa de Bananeiras, Lagoa de Saquarema, Taí Pequeno e Taí Grande, Lagoa de Quipari, Lagoa de Grussaí e finalmente a foz em Atafona.
Em meio a tantas lagoas e rios aprendeu a nadar. Não que fosse um exímio nadador. Nunca se atreveu a afoitezas. Dificilmente entrava na água sem que houvesse alguém por perto, a não ser que fosse em região baixa onde desse altura dos pés alcançar o chão. Mesmo adulto, no sertão próximo ao mar, nunca fez graça nos banhos de mar.
Verificando as origens dos recursos hídricos originais de nossa baixada, a quantidade de córregos, as lagoas e toda a região de restinga quase que naturalmente vem à mente a música de Sobradinho de Sá & Guarabira que faz referência ao caudaloso e majestoso São Francisco e bem poderia ser à nossa baixada do final do século IX até início do século XX. Abaixo a letra completa da música: Sobradinho O homem chega e já desfaz a naturezaTira a gente põe represa, diz que tudo vai mudarO São Francisco lá prá cima da BahiaDiz que dia menos dia vai subir bem devagarE passo a passo vai cumprindo a profeciaDo beato que dizia que o sertão ia alagarO sertão vai virar marDá no coraçãoO medo que algum diaO mar também vire sertãoVai virar marDá no coraçãoO medo que algum diaO mar também vire sertãoAdeus remanso, casa nova, sento-séAdeus pilão arcado vem o rio te engolirDebaixo d'água lá se vai a vida inteiraPor cima da cachoeira o Gaiola vai sumirVai ter barragem no salto do SobradinhoE o povo vai se embora com medo de se afogarO sertão vai virar marDá no coraçãoO medo que algum diaO mar também vire sertãoVai virar marDá no coração


Irmandade
Doze irmãos em vinte e dois anos

Manoel Estevam é foi o mais velho dos filhos de Zeca Estevam e de Da. Bila. Dois anos depois nasceu Godoardo e um ano depois Floriano. Lembra-se da infância e do contato maior com estes dois irmãos mais próximos. A irmã mais nova quando nasceu também já era pai. Portanto, sua primeira filha Emilse nascida em 30/09/1932 era onze meses mais velha que as tia Aicélia, nascida em 21/08/1933, registrada em 21/09/1933 como Arceles de Moraes, mais conhecida desde a infância até hoje como Ceinha.

Ao todo eram treze irmãos. Sete mulheres e seis homens incluindo Manoel Estevam. Depois de Godoardo veio Waldemiro Estevam de Moraes, que morou junto em pequeno, mas ao começar a crescer foi estudar na casa de Amaro Escova em Saturnino Braga. Waldemiro que faleceu em 2003, segundo Manuel, teve vida um pouco mais folgada e foi o único que pode estudar.

A primeira mulher da família Estevam de Moraes foi Waltrurdes. Em seguida veio Maria José, depois Francisca e Carmenzita fechou em 4 de fevereiro de 1924 a seqüência de quatro mulheres nascidas uma após a outra na família. Carmenzita nasceu em meio a maior enchente da baixada, acontecida no ano de 1924. (ver comentários sobre a enchente nos livros)

Depois desta seqüência, nasceu José Estevam de Moraes. José Estevão, um dos mais claros filhos, ganhou desde cedo a alcunha de Zé Russo. A exemplo dos três primeiros filhos que em função da idade se tornaram parceiros no período da infância, Zé Russo foi companheiro do irmão que veio a seguir que foi Francisco. Francisco, ao contrário dos demais, não teve o sobrenome da família registrado no nome e acabou por dar início a outro ramo da família com seu único sobrenome Santana. Francisco Santana. Francisco e Zé Russo passaram boa parte da sua infância já no sertão, embora tivessem nascido como todos os demais filhos na baixada. O filho seguir foi Nadir de Moraes que nasceu em 21 de janeiro de 1930 na Fazenda Cabaceiro em Campo Novo, três anos antes da caçula Arceles já citada.

Quando se refere aos irmãos que quando pequeno o chamavam de Dedé, se lembra da luta grande da mãe Da. Bila e do pai Zeca Estevam para criar os 13 filhos nascidos no período de 22 anos entre 1911 e 1933.

Godoardo seu primeiro irmão foi com quem teve muito contato na infância nas brincadeiras e depois nas atividades junto da família. Godoardo tinha dois anos menos. Morreu com dezoito anos. Acompanhou Manuel na luta, morreu quando já estavam na Fazenda Cabaceiro. “Ele morreu um pouco antes do meu casamento em 1932. Ele sempre foi franzino, mais franzino que eu. Ele tinha mais ou menos minha altura que é de 1,69. Quando caiu do cavalo já estava muito magro, acho que já estava tuberculoso depois foi só piorando. Godoardo eu lembro que ficou muito tempo de cama, papai lutou muito com ele, mas naquela época não tinha remédio para tuberculose que era pior do que o Câncer hoje, porque o câncer a gente não pega, isso foi em 1930”. Depois nasceu Floriano também dois anos menos. Valtrurdes nasceu no rodeio. Waldemiro é que saiu do Caboio para estudar na casa de Escova, como mais novo ficou só estudando.

A filha do meio foi Joaquina nascida em 8 de novembro de 1922. Desde nova ficou mais conhecida como Quininha. Ao longo da vida se tornou a mais religiosa de todos os membros da família, cultuando a religião evangélica, como adventista. Casou-se com Amaro. Morou uma boa parte da vida próxima a Fazenda da Liberdade, mais precisamente em Santa Rita. Amaro o cunhado, casado com Quininha tinha uma mania esquisita: possuía uma mania, que alguns chamam de gastura em relação a algumas coisas ou objetos. O principal problema era em relação ao arroz. Comia arroz, mas se alguém falasse em arroz perto dele se descontrolava num nervoso onde costumava puxar os cabelos das mulheres. O mesmo se dava ao falar em gatos pequenos, na condição de filhotes. Entre as pessoas atingidas é possível se lembrar de Eliete. Amaro almoçava na casa de Joemio e Eliete quando alguém lembrou da sua famosa gastura, Amaro se levantou e agarrou na pessoa de maior cabelo que estava próxima que era Márcia, filha de Eliete.

Depois de 1935 quando a família já havia se mudado para o sertão Manuel Estevam se recorda: “o falecido Floriano veio para aqui, casou e tinha caminhão e ia para a feira de Gargaú, fazia fretes. Ele acompanhou ainda solteiro, nosso pai Zeca Estevam. Waldemiro também teve uma vida, foi o que saiu primeiro do Caboio porque foi estudar em Saturnino Braga na casa de uma professora dos Dumas que morava em Mineiro, Dionita Dumas se não estou enganado. Quando o pai Zeca veio para o sertão Waldemiro ficou lá, foi para o sertão 11 filhos. Waldemiro brigou com uma turma e depois foi para o Rio porque não queria mais trabalhar em lavoura e depois foi servir ao exército. Trabalhou em uma porção de coisas e depois foi para a polícia, o exército. Nesta época, ele morando no Rio, ele vinha visitar papai e mamãe, quando a gente tinha fábrica de farinha na Liberdade, mamãe espremia tapioca para tirar o polvilho e juntava o dinheirinho para quando Waldemiro vinha levar aquele dinheirinho. Ele levava”. dinheirinho da bolandeira. Isto era mais ou menos 1938 e 1939 na idade de Edalmir”.

Todos os filhos homens começaram a ajudar nas atividades da família desde cedo. Até Francisco Santana o último dos filhos homens com 5 anos já tinha atividades na fazenda do Cabaceiro, cuidando dos porcos. “Waldemiro depois que voltou do Rio papai já estava no sertão ele veio e botou uma venda em Gargaú na época que tinha o barracão. Antes de se meter em política, já era casado, depois da venda ele teve tanto “moído” que ele foi amparado na minha casa com a mulher na Rua Professor Faria, ele tinha uma fábrica de bebidas na Rua Formosa perto da Estação do Saco. Ele comprava cachaça e vendia e parou lá em casa um tempo em 1945 mais ou menos”.

Quando indagado sobre quais dos irmãos mais trabalhou, respondeu: “naturalmente que foi quem veio primeiro, é ou não é? Foi quem passou maior sacrifício, porque os que vieram depois têm menos sacrifício, aí vai tocando. O compadre Floriano foi lutador também. O que menos lutou que andou mais e passou sacrifício, mas menos trabalhou foi Waldemiro. Waldemiro fugia de serviço, mas enfrentou muita coisa. Morou um tempo na Professor Faria, numa época que teve negócio com bebida. Comprava e vendia cachaça. Passou por muita coisa, mas parecido com Almeida (marido da filha Eloísa) deixou coisas para os filhos.

José Estevam, o Zé Russo foi um boêmio era meio doidão. O sujeito eles tiveram uma rixa aí num baile e o sujeito ficou caçoando ele aí, falando dele que queria encontrar com José, que fazia, que acontecia e José era solteiro, o sujeito de bicicleta, um dia José estava com um porretinho encontrou com ele ali em Chico perto da casa de Maria José. José encostou para ele, perguntou e apertou o sujeito quis correr José botou o porretinho na roda não deixou ele andar e caiu e José deus umas porretadas nele. Este camarada está em cima da cama hoje teve derrame, mora em Morro Alegre. Este camarada quando houve o asfaltamento desta estrada, ele morava na baixa, na curva de Morro Alegre, ele recebeu a terra de herança do pai dele, eles não quiseram indenizar, o pessoal da obra da estrada foi encostando terra de um lado e outro e ele foi ficando no meio e disse que só saía dali quando recebesse a indenização. No final, ele foi o único que recebeu nesta estrada de São Francisco a Travessão de Campos”.

Francisco nos anos setenta foi seu grande parceiro com contrato de arrendamento das terras da Liberdade para plantação de cana. Como filho mais velho sempre se preocupou com os irmãos, embora, também fosse discreto ao procurar não interferir na vida particular dos irmãos e dos seus filhos. É duro nos comentários e na conversa particular quando chamado a emitir opiniões sobre os problemas particulares de cada irmão e ou seus filhos, mas deixa a cada um os encaminhamentos que julga mais conveniente. As duas irmãs mais novas, Nadir e Arceles ou Ceinha, que acompanharam o pai nos últimos anos de vida quando este foi morar em casa no bairro da Penha, sempre mereceram atenções e preocupações especiais. Desde a década de 90 quando passou a usufruir uns dias de descanso e distração na instância de Raposo junto com Das Dores e algumas vezes com a filha Creusa, fazia questão de ter ao seu lado por alguns dias as duas irmãs.

Relação cronológica dos filhos de José Estevam e Umbelina Joaquina de Moraes:

1- Manoel Estevam de Moraes;
2- Gododardo Estevam de Moraes;
3- Floriano Estevam de Moraes;
4- Waldemiro Estevam de Moraes;
5- Waltrurdes Estevam de Moraes;
6- Joaquina Estevam de Moraes (Quininha);
7- Carmenzita Estevam de Moraes;
8- Maria José Estevam de Moraes;
9- José Estevam de Moraes;
10- Francisca Estevam de Moraes;
11- Francisco Santana; (tem nome diferente por ter nascido no dia de Na. Sa. De Santana)
12- Nadir Estevam de Moraes;
13- Arceles Estevam de Moraes;
14- Geraldo Albuquerque de Moraes (adotado com vinte e um dias de nascido, após perder a mãe no parto do seu nascimento; hoje ainda mora com as duas irmãs mais novas, na última residência de José Estevam no bairro da Penha em Campos).


A última surra
“Mamãe levou uma semana me escaldando de água de sal”


Não é difícil imaginar crianças soltas em extensa área do interior. Mais ainda, se essas áreas forem cercadas por inúmeras lagoas e córregos. A vegetação nativa de restinga permitia brincadeiras de correr, caçar passarinho e tomar banho nas águas. Aprendeu cedo a se defender dentro d’água. O irmão dois anos mais novo Godoardo era seu principal parceiro.

Não tinha dificuldades em fazer amizades para além dos irmãos, mas, a vida de mascate que o pai levou entre 1916 e 1921, entre os seus cinco e dez anos, o fazia mais ligado aos irmãos e à casa do que aos novos conhecidos. No entanto, o ambiente de comércio que o pai montava em cada localidade servia de bom espaço para conhecer a criançada do novo ambiente, que até o comércio se dirigia para atender as determinações de compra dos pais. O velho Zeca Estevam continuava na busca de um local de boa demanda para se estabelecer no comércio de secos e molhados na baixada.

Numa das últimas localidades percorridas neste “rodeio” (como ainda hoje gosta de se referir ao giro de cinco anos acompanhando os pais na baixada), aconteceu, segundo ele a última, que não foi a primeira, da surras que levou do severo pai. Na verdade, o pai, com vinte e nove anos e três filhos, já se mostrava incomodado pelas dificuldades em se estabelecer comercialmente em algum ponto da baixada e com a algazarra que vez por outra os três aprontavam nas brincadeiras e mesmo nas tarefas determinadas pela mãe Umbelina. Nesta época a briga entre eles foi se tornando uma rotina, misturada às brincadeiras de criança.

Estavam na localidade de Mineiros, Manuel já havia completado sete anos e meio quando levou a última surra. O motivo acabou sendo uma disputa com os irmãos para ver quem arrastava um saco cheio de melancias dentro da Lagoa de Coqueiros. Dentro d’água, próximo da casa, a mãe via a briga de Manuel, Godó e Floriano. Cada um puxando de um lado o saco de melancias e nada de chegarem em casa. Quando finalmente chegaram o pai Zeca gritou: - Vem cá agora Manuel! Sendo o mais velho dos filhos recaiu sobre ele o peso da bagunça. Correu em volta da casa até que a mãe o apanhou e entregou ao pai que já de posse de uma corda de couro lhe deu uma surra de não mais esquecer. A coça foi grande, os outros dois se esconderam e só ouviram o barulho da corda de couro zunir no ar.

Da Bila, após a lição foi socorrer o filho e durante uma semana teve que tratá-lo com de água de sal. Disse que não foi a primeira, mas se recorda desta ter sido a última surra que levou do pai.


Estevam ou Estevão
A certidão que oficializou e igualou os dois sobrenomes que deram início à família

Manoel Estevam nasceu e cresceu como se chamando e sendo chamado de Manoel Gomes da Silva, nome que herdou do avô materno e usou do nascimento em 16 de dezembro de 1911 até ter a certidão de casamento em 14 de maio de 1932. O pai José Estevam ou Zeca Estevam ganhou este sobre nome da mãe, religiosa fervorosa que foi buscar o sobrenome que deu início a uma família numerosa. Santo Estevam foi Rei da Hungria e pai de Santo Américo e tem seu dia comemorado em 26 de dezembro.

Alegou que na época na baixada campista os registros eram ainda muito raros e as crianças que nasciam recebiam um primeiro nome e o resto era dizer de quem era filho e pronto. Desta forma cresceu, respondeu a todos que perguntavam pelo nome como sendo Manoel Gomes da Silva. “Qualquer coisa que falava era Manoel Gomes da Silva”. Quando veio precisar de documento já tinha 20 anos. Daí passou a ser chamado de Manoel Estevão de Moraes. A partir daí passou a ter problemas porque a grafia do nome do pai era Estevam com “m”. Os filhos foram registrados com “ão”, com exceção de Edalmir que teve a grafia original registrada como o avô com “m” e também foi o único dos filhos que não teve o sobrenome da mãe, Azeredo, registrado em seu nome. Isto teria acontecido porque fora levado para ser registrado pelo tio Waldemiro Estevam de Moraes. Edalmir também herdou os problemas da grafia do sobrenome Estevam. Atualmente sua certidão de casamento tem a grafia do sobrenome escrito com “m” enquanto os demais documentos são todos com “ão”.

Quando os negócios começaram a ir em frente, a pegar empréstimos em bancos, etc., a grafia começou a lhe trazer problemas. Em pequeno foi chamado pelos irmãos até se casar como Dedé. Não se sabe a origem deste apelido, provavelmente são aqueles que crianças escolhem por ser de mais fácil fonema. Ainda hoje nas conversas íntimas, especialmente com as irmãs mais novas Nadir e Seinha, é desta forma que é chamado ou referido. Porém, mesmo elas quando falam dele para terceiros, mesmo da família se refere a Manuel Estevam.

Conviveu desta forma até que escrivão sugeriu que fizesse uma petição ao juiz do cartório do 4° distrito do município, São Sebastião solicitando ao juiz uma solução para a grafia do seu nome. Na segunda via da Certidão de Casamento expedida por este Cartório em 18 de setembro de 1976, o escrivão, Antônio Joaquim Simão, embora a Certidão esteja assinada pelo Escrivão de Paz Roberto Ribeiro de Souza, logo após citar Joaquim Vicente de Siqueira e Francisco Nunes Velasco como testemunhas do casamento, coloca uma observação: “Consta à margem do assento averbação que envolve retificação de nome do Cônjuge masculino”. (veja anexo)

A partir daí, apesar da sua carteira de identidade tirada em 6 de janeiro de 1953, no Instituto Pereira Faustino, Registro de número: 172.590, constar a grafia “Estevam” (vide anexo) passou a adotar definitivamente o sobrenome como “Estevão” nome que consta do seu título eleitoral atual (anexo) cuja emissão foi feita em 18/09/1986. Ainda na sua Identidade é informada como “Notas Cromáticas”, Cútis branca, Olhos Castanhos e Cabelos Castanhos. Interessante ainda observar que no espaço destinado a assinatura do portador percebe-se que a letra depois do “a” de Esteva, aparece um espaço, como que desmanchado que deve ter sido a saída usada para se livrar de alguns infortúnios que a burocracia deve lhe ter imposto ao longo deste período. Esta observação antes mesmo de ser identificada por este interlocutor, foi citada quando da lembrança das reminiscências do seu passado.

Os problemas com seu nome não pararam por aí. Observando sua documentação encontramos ainda o antigo CIC (Cartão de Identificação do Contribuinte) atual CPF (Cadastro de Pessoa Física) de número: 071.599.607-00 organizado pela Secretaria da Receita Federal com o seu nome grafado como Manuel e não Manoel Estevão de Moraes.


Açougue
“urubu quando está azarado o de cima suja o de baixo”

Embora tenha trabalhado na lavoura fazendo capina, plantando mandiba (mandioca), ajudando na criação de gado e no comércio de secos e molhados do pai, a primeira profissão que se pode atribuir a Manuel Estevam é a de açougueiro. O pai depois que largou o comércio de secos no Caboio tornou-se sócio de Tatão Dias, ou Sebastião Soares de Araújo como era conhecido. Manuel tinha na época dez anos de idade e ainda morava no Caboio, nas terras de João Siqueira. O açougue montado pelo pai com o amigo Tatão era localizado em São Sebastião, localidade da residência do amigo e agora também sócio.

Não era fácil morar tão distante assim dos negócios. Fazia o percurso quase diariamente entre o Caboio e São Sebastião para tocar o negócio: “nós, eu e meu pai Zeca íamos um em cada cavalo do Caboio até lá. Ele no cavalo puxando a vaca na corda e eu acompanhando para levar para matar. Neste tempo o Caboio era só água. Você calcula ir do Caboio a São Sebastião. Nós matávamos o gado e algumas vezes nós dormíamos na casa de Tatão. Eu ainda lembro do pai de Tatão, o velho Zé Dias, tratava Zé Dias, era viúvo e vivia na casa de Tatão, em São Sebastião, na curva como quem vai para Mineiros. À noite eu chegava molhado da chuva, jantava e depois ia dormir. Às vezes a roupa enxugava no próprio corpo. Nas noites frias, o velho Zé Dias pegava um cobertor, do tipo de um sobretudo que ele tinha e colocava em cima de mim. Eu dormia no quarto junto com ele, o velho Zé Dias. Tatão morreu com 101 anos. Eu ajudava papai a matar o gado e a entregar a carne para os fregueses. Lutei e ralei muito, conheci muita gente... a freguesia era no caminho, a sobra da carne que ficava no açougue e não vendia, naquela época era pouca gente, a gente levava e entregava carne de São Sebastião até o Caboio. A sobra da carne a gente salgava para despesa em casa e às vezes também para vender. Naquela época salgava carne, salgava peixe, não tinha geladeira, a carne era vendida com osso. Quando terminava de vender a rês não tinha osso nem carne. A carne ia junto com o osso que servia para fazer ensopado. Essa separação do osso e da carne só se passou a fazer depois.

Já tinham ido morar em Campo Novo, na Fazenda Cabaceiro quando seu pai Zeca Estevam vivia mais uma época de apertos com os negócios difíceis e uma penca de filhos para criar. No final de 1934 com a morte do sogro Juca Azeredo, Manoel pediu para Da. Mariana, a sogra, fazer o adiantamento da parte, ou melhor, em 500.000 réis. Sinhozinho Ferreiro era sogro de Brás e tinha fazenda na Quixaba, tinha recebido empréstimo de 20 contos com Juca Azeredo. “Juca Azeredo era rico por causa destes 20 contos. Sinhozinho pagava ao velho Juca os juros de ano a ano. O adiantamento veio deste pagamento de Sinhozinho Ferreira. Ficou ainda um gadinho, um jogo de empurra para repartir o gado. Este gado estava em Saquarema, um dia eu disse: vou repartir o gado, cheguei lá empurrei para lá, para cá e mandei eles irem escolhendo e o fundo eu apanhei. Os irmãos Canico, Amaro, Maria, Zizinho, umas dez reses. Ele sabia agüentar o dinheiro e todo mundo achava que ele era rico. Como de fato quem tinha 20 contos naquela época era rico. Juca Azeredo tinha duas propriedades: uma em Saquarema Pequena, que quando Juca morreu dividiu com os herdeiros e a outra em Saquarema Grande com um alqueire e pouco onde a velha ficou”.

Cabaceiro, onde moravam nesta época, era fazenda de propriedade de Tatão Dias. Manuel morou ali até 1935, época que seu pai foi para o sertão a convite de Sr. Didino. Cabaceiro era uma fazenda próxima das lagoas de Saquarema Grande, Saquarema Pequeno e Canema para onde foi morar em 1935.

O dinheiro da parte da herança da esposa Da. Dora serviu para montar um açougue de sociedade com o cunhado Amaro Azeredo, que tocou por três anos. Ao conseguir o dinheiro como adiantamento da parte da herança de sua esposa Da. Dora, recorda-se de ter comprado um cavalo por 30.000 réis para se deslocar na busca de fregueses, na entrega de carne e também no contato com os fornecedores do gado. Dois dias depois da compra o cavalo quebra a perna ao fazer uma entrega de carne e tem que ser sacrificado. Era uma época difícil, como já foi dito e como é comum nestes períodos, como ele mesmo definiu: “urubu quando está azarado o de cima suja o de baixo”. Mais uma vez recorre à sogra Mariana que cede um cavalo da propriedade de Saquarema para que mantivesse as atividades do açougue junto com o cunhado e compadre Amaro Azeredo. Tinha bom relacionamento com o cunhado (duplo cunhado-fato não muito raro na época – era irmão de Da. Dora sua esposa e esposo de sua irmã Joaquina, mais conhecida como Quininha, a quinta na sucessão dos seus irmãos) a quem carinhosamente alega ter sido “descansado” para o trabalho.

Quando chegou ao sertão, logo montou um açougue onde exerceu mais uma vez os dotes aprendidos na baixada da matança e comércio das carnes bovinas. O açougue no sertão se manteve por quatro anos ao mesmo tempo em que cuidava da Fazenda Cabo Verde. O açougue que era localizado no cruzamento da estrada que vai de Travessão para São Francisco de Itabapoana e a entrada para Santa Rita, passou a exigir maior dedicação de tempo que já não possuía, nos idos de 1941, quando outras oportunidades de negócio foram surgindo. O prédio onde funcionou o açougue no sertão fica em frente à Fazenda Liberdade foi alugado na época a Chico Guimarães. Recorda-se ainda que este ponto depois do açougue passou para Mozir, depois Manuel Patrão, velha Data, Claudino e hoje funciona ali há uma casa abandonada.

Nesta época aproveitava a ida nos finais de semana para casa na cidade e também negociava carne para os açougueiros Campos. “Comprava porco engordava e levava para Campos. Lá também, na casa da Prof. Faria chegamos a ter um chiqueirinho onde antes era um tanque. Aproveitava os restos de comida para engordar os porcos. Também já levava carne de boi já para vender. Levava e entregava aos açougueiros. Pegavam e pagavam direitinho naquele tempo o povo era mais sério. As coisas eram mais difíceis e mais fácil de levar tocado”.

Quando os negócios de comércio de gado e também as transações de propriedades começaram a dar resultados a atividade do açougue deixou de ser interessante pelo retorno limitado que dava. Comprar propriedade, fazer benfeitorias, criar bois e fazer plantações de meia com colonos passaram a ser as atividades mais lucrativas a qual se dedicou nos próximos 50 anos. Nunca escondeu este período e tem plena consciência de que foi a partir dele que conseguiu o básico para depois avançar nos negócios que tinham como objetivo dar estudo para os filhos e algum conforto para a família que ainda estava construindo.


Filhos, netos e bisnetos
“Vestia o terno de linho e ia para a festa no Grêmio Literário”

Manoel Estevam de Moraes teve 8 filhos, 25 netos e 18 bisnetos. Atualmente, com a perda do filho Ecival em 1974, tem sete filhos vivos. Perdeu ainda em 1991, uma das netas, Adriana, filha de Eliete e Joemio. Seus oito filhos nasceram num período de vinte e quatro anos, de 1032 a 1956. Seis foram com a primeira esposa Doralice de Azeredo Moraes e dois com Maria das Dores Pereira Pessanha. Os três primeiros nasceram na Baixada Campista. Emilse e Ecival na Fazenda Cabaceiro de Sr. Tatão Dias em Campo Novo. Eliete nasceu na Canema e com dois meses foi morar no sertão. Foi pai zeloso, razoavelmente severo, mas dedicado. A labuta no campo fez com que, como era comum nesta época, obrigou que a convivência fosse mais com as mães do que com o pai.

Depois da mudança da Baixada em 1937 para o sertão de São João da Barra, com os três primeiros filhos conviveu na casinha de palha próximo ao curral da Liberdade, de onde saía diariamente atrás dos negócios. Inicialmente as obrigações eram com o açougue e paulatinamente foram crescendo com os novos negócios que foram surgindo. Era época difícil, de trabalho duro. Da. Dora ajudava na criação de galinhas, dos porcos, além de cuidar das crianças ainda pequenas. Nesta época quando Manuel Estevam chegava já noite exausto das atividades no campo, muitas vezes era ela que retirava a cela, banhava e alimentava o cavalo depois de colocar a janta para o marido.

A relação de Manuel com os filhos, que para uns seria de aparente severidade, não condiz com os relatos dos filhos. Segundo Eliete, o pai Manuel Estevam sempre foi muito animado. Recorda-se em especial da época de 1942 em diante. Nesta época, quando os negócios começaram a fluir, ele teve um pouco mais de tempo para se dedicar à família. Mesmo antes de adquirir o primeiro carro que foi uma caminhonete, de carroceria de madeira sem portas com a qual aprendeu a dirigir com Enéas Rangel, gostava de passear com os filhos e outras crianças amigos dos filhos. Os finais de semana eram animados. Revezava os destinos. Num se dirigia com toda a turma ao Caboio para visitar os parentes e amigos deixados. Em outros, já com o segundo carro um Ford 29 se dirigia à praia de Atafona em São João da Barra. Eram viagens não tão curtas como hoje com vias asfaltadas e carros mais potentes. Freqüentava os aniversários dos parentes quando coincidiam com os finais de semana.

O aniversário da mãe Da. Bila em 19 de março era sagrado levar a família para a propriedade Liberdade no sertão onde passava a semana com os pais depois que havia levado a família para viver e morar na cidade. Quando os demais carros que possuiu vieram chegando os passeios também seguiam a mesma proporção. O carro adquirido depois do Ford 29, foi um “rabo de peixe” adquirido de um motorista de “carro de praça”. Em 1946 depois da guerra, comprou uma caminhonete importada, uma Fargo vinho, muito bonita. Particularmente, me recordo da rural williams azul. O avô Manuel gostava de encher o carro com os netos para passeios dentro e fora da cidade. Fotos ainda guardadas mostram passeios nas praias do sertão, em Gargaú e Manguinhos junto com a esposa, filhos e netos.

A animação para as festas, embora tenha se ampliado depois da aquisição dos veículos, não prescindia da presença do mesmo antes de sua posse. Pelo menos uma festa de Santo Amaro é recordada pelos filhos que se dirigiam de ônibus ou carona até o Caboio na Baixada e de lá seguiam junto com diversas outras famílias para a Festa de Santo Amaro no tradicional dia 15 de janeiro. Em 1942 a caminhada para a festa começou na véspera, quando se dava a chegada do trem especial vindo de Campos e o Levantamento do Mastro da Festa. As crianças e as mulheres seguiram de carros de boi fechados com lona, se prevenindo de sol e chuva, que acompanhavam os homens adultos que seguiam na frente fazendo o trajeto do Caboio até Santo Amaro. Os carros de boi que seguiam de diversos outros pontos da Baixada para a festa levavam grande quantidade de alimentos preparados antecipadamente para os festejos que reunia uma grande quantidade de barraquinhas ao redor da praça. O ponto alto acompanhado com entusiasmo foi mais uma vez a tradicional luta simbólica entre Mouros e Cristãos encenados com garbo na cavalhada.

Manuel acompanhava os filhos em festejos também no colégio onde estudavam, o Colégio São Salvador próximo da casa na Rua Professor Faria. O dia 11 de maio era comemorado no chamado Grêmio Literário do Colégio São Salvador. Vestia o terno branco de linho de que tanto gostava e seguia junto com Da. Dora para a festa. Não apenas se fazia presente, fazia questão de participar. Gostava de dançar, se divertia entre os jovens. Tirava as filhas para dançar no salão do Grêmio Literário. Um caso engraçado marcou uma destas festas. Dançava com Emilse, a filha mais velha quando uma amiga, no meio do salão, ao passar ao lado do casal faz uma ameaça de contar ao seu pai sobre o seu namoro, sem saber que exatamente o par na dança era o seu pai. O fato demonstra a forma descontraída com que se relacionava com os jovens.

Gostava também dos dias de carnaval. Preparava a família para assistir aos desfiles, especialmente dos corsos. Isto já no final da década de quarenta. Preparava a caminhonete Fargo, as crianças, os adolescentes, jovens, filhos e amigos eram transportados para o centro para assistir aos desfiles. Os desfiles começavam na beira-rio, subia a praça do lado da catedral, passava na rua do Sacramento, Saldanha Marinho e subia a 13 de maio em direção ao Trianon onde o desfile era encerrado com chave de ouro. O pessoal levava cadeiras para um dos pontos deste trajeto, normalmente na rua treze de maio, vestidos a caráter para a época, equipados ainda com as lanças de perfume, serpentinas e confetes.

Cumpria seu papel de chefe da família e pai com prazer, estimulando os filhos a um convívio saudável e camarada com amigos numa sociedade.

Abaixo a lista completa de descendentes familiares, incluindo filhos, genros e noras, netos e bisnetos:

Filhos de Doralice de Azeredo Moraes:(6)
- Emilse de Moraes Siqueira casada com Olímpio Siqueira nascida em 30 setembro de 1932;
- Ecival de Azeredo Moraes casado com Janette Monteiro nascido em 21 de outubro de 1934, registrado em 01 de novembro de 1935;
- Eliete Moraes Pessanha casada com Joemio da Silva Pessanha, nascida em 03 de novembro de 1936;
- Edalmir Estevão de Moraes casado com Marlene Viana de Carvalho, nascido em 28 de outubro de 1939;
- Emilton de Azeredo Moraes casado com Selma Costa, nascido em 9 de janeiro de 1946;
- Eloísa Helena de Moraes Almeida casada com José de Almeida Filho nascida em 24 de fevereiro de 1948;

Filhos de Maria das Dores Pereira Pessanha (2) nascida em 03 de março de 1933;
- Creusa Maria Pessanha Rangel, nascida em 03 de junho de 1950;
- Manoel Carlos Pessanha, nascido em 13 de julho de 1956.

Netos:
Filhos de Emilse de Moraes Siqueira com Olímpio de Almeida Siqueira:
- Cláudia Siqueira Bhom;
- Kátia Moraes de Siqueira;
- Lílian Moraes de Siqueira;
- Lúcia Moraes de Siqueira;
- Olímpio de Siqueira Júnior;

Filhos de Ecival de Azeredo Moraes com Janette Monteiro:
- Débora Monteiro Moraes de Moura Bastos;
- Verônica Moraes de Viegas Ribeiro;
- Luciano Monteiro de Moraes;
- Fábio Monteiro de Moraes;

Filhos de Eliete Moraes Pessanha com Joemio da Silva Pessanha
- Tânia Lúcia Moraes Pessanha Araújo;
- Roberto Moraes Pessanha;
- Márcia Moraes Pessanha;
- Adriana Moraes Pessanha Azeredo (in memorian);

Filhos de Edalmir Estevão de Moraes com Marlene Viana de Carvalho:
- Marcelo Viana Estevão de Moraes;
- Alessandra Viana Estevão de Moraes;
- Rodrigo Viana Estevão de Moraes;

Filhos de Emilton Azeredo de Moraes com Selma Costa:
- Cristiane Costa de Moraes Maia;
- Gustavo Costa de Moraes;
- Vinícius Costa de Moraes;

Filhos de Eloísa Helena Moraes Almeida com José de Almeida Filho:
- Ana Paula Moraes de Almeida;
- Fernanda Moraes Almeida;

Filhos de Creusa Maria Pessanha Rangel com João Batista Rangel:
- Fabiano Pessanha Rangel;
- Manoele Pessanha Rangel;

Filhos de Manoel Carlos Pessanha com Valcimea Lemos Pessanha:
- Adriano Lemos Pessanha
- Katiane Lemos Pessanha

Obs.: Netos casados e sem filhos:
Fábio Monteiro de Moraes com Carla Verônica Cruz de Almeida Moraes
Lúcia Moraes de Siqueira com Luiz Eduardo Guerra
Ana Paula Moraes de Almeida e João Blanc Nunes

Bisnetos:
Netos de Emilse e Olímpio: Filhos de Claúdia com Pedro Bhom:
- Carolina Siqueira Bhom;
- Paula Siqueira Bhom;
Netos de Emilse e Olímpio: Filha de Kátia com Luiz Medeiros:
- Maria Gabriela Siqueira de Medeiros;
Netos de Emilse e Olímpio: Filho de Lílian com Décio Daniel da Rocha Teixeira:
- Daniel Siqueira da Rocha Teixeira;

Netos de Ecival e Janette: Filhos de Débora com Aílton de Moura Bastos:
- Felipe Monteiro Moraes de Moura Bastos
- Bruno Monteiro Moraes de Moura Bastos
- Paula Monteiro Moraes de Moura Bastos
Netos de Ecival e Janete: Filhos de Verônica com Paulo Sérgio Viegas Ribeiro:
- Ciro Moraes de Viegas Ribeiro
- Lucas Moraes de Viegas Ribeiro
Netos de Ecival e Janete: Filhos de Luciano com Mirela Aguiar:
- Mariana Aguiar Moraes

Netos de Eliete e Joemio: Filhos de Tânia com Jair Araújo:
- Igor Moraes Pessanha Araújo;
- Karla Moraes Pessanha Araújo;
Netos de Eliete e Joemio: Filhos de Roberto com Ilda Mayerhoffer Machado:
- Caio Mayerhoffer Machado Moraes Pessanha;
- Nina Mayerhoffer Machado Moraes Pessanha;

Netos de Emilton e Selma: Filhos de Cristiane e Aristeu Maia:
- Giovana de Moraes Maia;

Netos de Manoel Carlos (Carlinhos) com Valcimea Lemos Pessanha:
Filho de Adriano com Josivane Valadares de Oliveira
- Eduardo Valadares Pessanha
Filho de Adriano com Kelly Simone Freitas Cardoso
- Mateus Cardoso Pessanha

Netos de Manoel Carlos (Carlinhos) e Neinha:
Filho de Katiane com Leonardo dos Santos Terra
- Gabriel Pessanha Terra


A perda do filho
O susto no sertão e a perda do filho que já virara conselheiro

Manoel Estevam teve oito filhos, num período de vinte e quatro anos, de 1032 a 1956. Seis foram com a primeira esposa Doralice de Azeredo Moraes e dois com Maria das Dores Pereira Pessanha. Os três primeiros nasceram na Baixada Campista e os demais no sertão de São João da Barra. O trabalho pesado não permitiu que acompanhasse como gostaria o crescimento das crianças, ainda assim gostava do convívio com elas.

Em 1941 conviveu pela primeira vez com a ameaça da perda dos filhos. O impaludismo, nome popular da doença também conhecida como malária que graçava na região atingiu os quatros filhos. Todos eles foram atingidos pela doença que durante mais de mês deixava as crianças do meio da tarde em diante com a febre que acabou incluindo Edalmir que era o filho mais novo que, nascido no sertão se encontrava com um ano e meio e era o mais atingido. Como era comum, com a crendice e a falta de estrutura médica a rezadeira foi a primeira a ser procurada. Os filhos foram atendidos por uma rezadeira que levada na casa situada na Liberdade, deitava as crianças no chão e riscava ao redor do corpo de cada uma com uma faca contornando o mesmo enquanto fazia rezas em voz baixa e quase inaudível.

Passado um tempo, sem que a febre transmitida por um mosquito desse trégua, Manuel acabou por recorrer ao farmacêutico de Morro Alegre, Sr. Josué. Inicialmente a receita indicou um medicamento em pó que devia ser colocado junto à comida, normalmente o feijão. O medicamento mudava o gosto do alimento e era rejeitado pelas crianças, especialmente pela terceira filha Eliete, que então com quatro anos, em 1940, só acabou convencida do sacrifício com a promessa cumprida de ganhar em troca uma bonequinha de porcelana. O brinquedo a encantou num tempo semelhante ao da febre do impaludismo, visita constante da tarde e noite das crianças. Infelizmente a sobrevida da boneca foi menor do que a da febre da sua portadora. A boneca pouco tempo depois foi ao chão quando um dos meninos abriu o armário de roupas, acabando com encanto do brinquedo, mas não com a febre da dona da boneca.

O remédio, sob a forma de um pozinho não surtindo o efeito esperado pelo farmacêutico, no qual Manuel depositava total confiança e vendo que o tempo passava e a doença não cedia, acabou por aceitar o conselho do farmacêutico e se mudou para Campos trazendo Da. Dora e os quatro filhos.

Mais uma vez a parada foi na casa do amigo Sr. Didino que o acolheu com a esposa e os quatro filhos enquanto providenciava uma casa para acomodar a família na cidade. Estava decidido a manter a família na cidade, apesar das dificuldades e do ainda fraco rendimento que conseguia obter com os negócios no sertão. A Fazenda Cabo Verde e a Boa Vista consumiam energia, tempo e dinheiro.

Porém, a preocupação com a criação dos filhos e o desejo que tivessem um futuro melhor, se aliava ao desejo e sentimento que nutria no peito de que iria superar as adversidades e ir em frente. Beirava os trinta anos, que completaria em 16 de dezembro. Da. Dora, cinco anos mais velha e sempre muito disposta, tinha dúvidas sobre o desejo do marido em permanecer na cidade. Nutria um sentimento duplo, desejava que os filhos estudassem, tivessem uma vida melhor na cidade, mas, talvez com os pressentimentos que só as boas almas possuem, sentia que não devia se afastar do marido na sua dura vida do sertão. Não teve dúvidas quando também sentiu a ameaça do impaludismo tomando as crianças. Era o ano de 1942. Da. Dora arrumou as trouxas, pegaram uma carona e partiram para Campos.

Hospedaram-se por uma semana na casa de Sr. Didino no bairro do Turfe Clube, na Rua João Maria, próximo ao antigo e conhecido Cine São José. Ao final da semana conseguiu alugar uma casa próxima a de Seu Didino. Era uma pequena casa geminada na esquina da Rua da Conceição com a Rua João Maria. A família permaneceu um ano nesta casa, período em que as quatro crianças recuperaram a saúde e os negócios no sertão começaram a prosperar. Estava animado com o crédito e a confiança que vinha ganhando junto às pessoas que já estavam no comércio. Levava a semana no sertão e vinha sempre na sexta-feira e retornava na segunda-feira bem cedinho para o sertão, rotina que depois iria se estabelecer por mais de trinta anos. Neste período, teve tempo e estímulo para procurar uma casa para comprar. Visitou algumas casas que estavam à venda e acabou por optar por uma casa na região que começava a despontar, próximo ao barracão dos bondes na Rua Formosa. Estava decidido que as crianças, já acostumadas na cidade, não retornariam mais ao sertão para morar, apenas para passar as férias.

Depois de olhar algumas alternativas fechou negócio com Sr. Higídio de Souza Pinto em 1942 na compra de uma casa na Rua Professor Faria, número 37. A localização da casa adquirida próxima ao crescente Colégio São Salvador, finalmente possibilitou a que as crianças passassem a estudar. Emilse a mais velha já estava com 10 anos, Ecival com 8 e Eliete com 6 anos quando começaram a freqüentar o colégio.

Nos anos que se seguiram, um pouco mais folgados, as crianças passaram a ir para o sertão apenas nas férias. Nas férias de meio de ano ficavam na Liberdade e no verão passaram a veranear, como era costume entre os moradores do sertão na praia de Gargaú que era muito apreciada pela lagoa junto ao mar que permitia bons banhos, especialmente para as crianças. Em 1947 quando o filho Emilton tinha um ano e a filha mais nova Eloísa ainda não tinha nascido, num belo dia de sol, Manuel caminhou cedo para o banho de mar acompanhado das duas outras filhas Emilse e Eliete tendo ao colo o filho mais novo Emilton que acabara de completar um ano de idade no dia 9 de janeiro. O mar de Gargaú normalmente não era, o que se chama de um mar bravo. As ondas eram relativamente pequenas e as duas filhas acompanhavam o pai com o filho ao colo se banhando na parte mais próxima a arrebentação. De repente foram surpreendidos por uma onda um pouco mais alta que retirou Emilton dos braços de Manuel que se levantou sem localizar o pequeno Emilton. Desesperado passava os braços pela água na esperança de localizá-lo e nada. As filhas já haviam chegado para perto para ajudar e também não conseguiam identificar para onde Emilton tinha sido levado, até que Manuel virado de costas para o mar e de frente para a praia, sentiu algo se enganchar em suas pernas. Abaixou-se e recuperou o pequeno Emilton. Saiu às pressas para a praia, colocou Emilton de bruços, bateu em suas costas para que a água engolida fosse posta para fora. Logo Emilton chorava, mas, parecia recuperado. Manuel ficou sem sentir as pernas pelo desespero que ainda sentia em função do trauma que os veranistas de Gargaú viviam pela morte prematura de um jovem afogado na Lagoa do balneário alguns dias antes. No dia seguinte trouxe Emilton para ser analisado e medicado pelo médico pediatra, famoso na época, Dr. Prazeres, que nenhuma seqüela identificou após o susto que fez Manuel Estevam sentir o desespero da ameaça da perda de um filho.

Nesta época era comum passar o verão em Gargáu, mas, os filhos se recordam de terem, ainda no início da década de 50, aproveitado dois verões na praia de Grussaí. Da. Dora tomava conta da criançada e Manuel na segunda-feira seguia para o sertão cuidar da propriedade dos negócios retornando na sexta-feira com mantimentos para também acompanhar as crianças e descansar na casa de praia alugada. Neste ambiente alegre e de camaradagem os filhos cresceram, se casaram e constituíram família. Muita coisa se passou neste período de mais de 30 anos. Muitos netos nascidos. Os negócios no sertão tinham um ritmo menor em termos de volume, porém uma maior movimentação de dinheiro, fazendo transação com os bancos e preparando as terras da Liberdade a partir de empréstimos do Banco do Brasil com terraplanagens que serviria tanto para o pasto quanto para a plantação de cana-de-açúcar que cada vez mais era estimulada pelo governo militar que reestruturara o IAA (Instituto de Açúcar e Álcool).

A filha mais velha Emilse radicou-se no Rio de Janeiro após casar-se com Olímpio Siqueira, de família tradicionalmente campista também da Baixada, mas radicado há muito anos no Rio de Janeiro. Ecival, o segundo filho, casado há menos tempo com Janete estabeleceu-se como o avô no negócio de alimentos com uma venda na esquina da Rua dos Bondes com a Rua dos fundos do Fórum Nilo Peçanha. Ecival também quase em seqüência já possuía dois casais de filhos, sendo as meninas as mais velhas. Os negócios com a venda, depois das dificuldades enfrentadas com a enchente de 1966, estavam caminhando bem como aumento da população naquela área assim como o seu bom relacionamento na freguesia.

Eliete, a terceira filha estava casada há dezoito anos com Joemio. Também já tinha quatro filhos que, até então parecia ser o padrão da família. Eliete cuidava dos filhos pequenos e Joemio funcionário do Banco do Brasil enfrentava os serões e as horas-extras para dar conta do grande movimento do banco e ajudavam no salário para pagar o empréstimo contraído para pagar a construção da casa própria no Turfe.

Edalmir casou com Marlene em 18 de janeiro de 1964. Possuía dois filhos e trabalhava no comércio de óculos com o Sr. Antero nas Óticas Boa Vista, onde também batalhava horas-extras para sustentar os filhos ainda pequenos na escola. Nesta época, também buscava recursos para ampliar sua residência localizada numa vila nos fundos do Campo do Goytacaz, que se tornara pequena em função do crescimento da família.

Em 1974 seus dois filhos mais novos com Da. Dora, Emilton e Eloísa tinham 28 e 26 anos respectivamente, enquanto os filhos que possuía com Das Dores, Maria das Dores Pereira Pessanha, Creusa e Carlinhos, tinham nesta época, 24 e 18 anos respectivamente.

O relacionamento com todos os filhos sempre foi bom, mas com o filho homem mais velho, Ecival era especial. Na verdade, Ecival já se tornara um conselheiro. Manuel Estevam tinha passado a ouvir mais o filho do que aos seus próprios irmãos: “Ecival conversava muito comigo. Os irmãos tinham até um pouco de ciúmes... mas, ele casou teve aquela venda era o mais velho... a gente chegava lá e conversava. Um dia ele disse: - papai o senhor tem que arranjar uma maneira para o senhor ter uma reserva; o senhor precisa vender a Fazenda da Ponta do Laudo para o senhor não viver só devendo e apertado. Isto foi em 1968. Daí acontece o que aconteceu com ele em 19 de fevereiro, sendo sepultado no dia vinte.”.

O acidente ocorreu num domingo, 17 de fevereiro. Nesta época os irmãos todos já casados e com automóveis recém comprados, costumavam fazer programas juntos. Gostavam de jogar cartas e no verão faziam outros passeios às praias da região. Foi Ecival quem organizou o passeio do final de semana. O planejado era ir à Região dos Lagos, mais especialmente à Cabo Frio, onde Ecival pegaria Débora, sua filha mais velha, que estava aproveitando uns dias na casa da vizinha Fernanci. No sábado para surpresa de Ecival Débora retornou de Cabo Frio, fazendo com que o passeio fosse reprogramado para o litoral do Espírito Santo.

Quatro carros seguiram para o passeio tendo saído de Campos às seis horas da manhã. Almeida viajou num carro chamado TL, sem Eloísa que ficou com a filha mais velha Ana Paula e foi acompanhado de Emilton e Selma. Em outro carro Foi Edalmir, Marlene e os dois filhos Marcelo e Alessandra num fusca branco. Ecival no seu fuscão bege foi com a esposa Janete e os quatro filhos, Débora, Verônica, Luciano e Fábio o mais novo com dois anos de idade. Participaram ainda do passeio Rafael e Jacira, ela prima de Ecival. Próximo da praia de Iriri o fusca de Edalmir quebrou a barra de direção o que fez com que andasse ainda mais devagar e o fizesse sair mais cedo ao voltar. Aproveitaram o passeio, caminharam pelas pedras e até ocorreu um episódio conhecido de poucas pessoas. Ao retornarem de uma caminhada na beira mar junto no canto da praia junto às pedras, Almeida, Ecival e Edalmir resolveram mergulhar e nadar um pequeno pedaço até a praia. Emilton, medroso em relação à água e a natação, pensou duas vezes e, diante da insistência dos demais, pulou na água. Não sabe explicar o que aconteceu quando começou perder as forças, os braços paralisaram e perdeu as forças nas pernas. Já havia descido ao fundo uma vez quando foi socorrido por Ecival que, indo por trás de Emilton, ofereceu o ombro para apoio, ajudando-o até conseguir ter altura para alcançar a areia.

Lancharam, tomaram mais banho e Edalmir tomou a decisão de voltar mais cedo em função das condições mais precárias do seu carro. Três da tarde, tendo ao volante Emilton mais experiente que Edalmir na direção de carros tomou o rumo de casa já por volta das três da tarde. Logo a seguir os demais saíram. Não estavam correndo, o que se sabe é que na altura de Morro do Coco, por volta das 16:30, na chamada curva de Sucupira, que já ceifou dezenas de vida na BR-101, o carro capotou. Ninguém, com exceção de Ecival, sofreu ferimentos, além de arranhões. Ecival sofreu uma forte pancada na cabeça, gerando, segundo diagnóstico feito no Hospital da Santa Casa, fratura de crânio seguida de hemorragia. Foi operado na noite do próprio domingo e não resistiu aos ferimentos vindo a falecer dois dias depois.

O acidente e a morte de Ecival desconcertaram Manuel Estevam. Emilton o filho homem mais novo também garantiu que a perda do filho fez com que por mais de um mês ficasse praticamente sem se alimentar e fazer barba e ainda por um ano Manoel Estevam se refugiou por completo em Santa Rita. Ecival era encarado não só pelos parentes, mas, pelos amigos mais próximos da família como seu esteio. Ele que deixara Janete viúva e quatro crianças pequenas a serem criados, tinha também aberto um verdadeiro rombo entre os irmãos e os pais. A Ecival cabia, no dia a dia em que Manuel Estevam labutava no sertão, encontrar soluções para os problemas comuns ao cotidiano de toda família, especialmente as famílias mais numerosas.

Emilton ao descrever as intervenções de Ecival se lembra: “foi que Ecival conversou com papai para que eu morasse com mamãe e eu desse um apoio e porque só estavam Eloísa e mamãe dentro de casa. Depois Eloísa casou e foi para Niterói”. O próprio Manuel Estevam ao descrever os conselhos de Ecival para fazer uma reserva recordou-se: “Lá eu vendi porque eu achava que a vida tinha acabado para mim. A propriedade de trás da igreja, de três alqueires vendi... Então eu falei, eu vou diminuir os negócios, vou descansar um pouco e foi a venda disso lá que me libertou”. Ao confirmar o acerto e ao mesmo tempo a falta que Ecival ainda hoje faz, ele diz mais uma vez se referindo à época: “Desta data em diante aconteceu tudo que Ecival conversava comigo”.

Não resta dúvida, de que embora os motivos para a permanência de Manuel Estevam no sertão ultrapassasse os dias da semana, a morte de Ecival, acabou detonando um processo de rompimento como fruto da suspensão da relação de confidências e diálogos entre o filho mais velho e o pai. Manoel Estevam se refugia quase que definitivamente em Santa Rita.

A morte lenta da filha mais velha Emilse em 12 de março de 2001, vítima de um câncer de útero, também abalou Manuel Estevam. Porém, a notícia da doença e o seu desenvolvimento, de certa forma, preparou não Manuel, mas a família, para o desenlace com a filha.


Manuel compra, vende e negocia no sertão
“Apelei para ele me dar um prazo e não sei como arranjei o dinheiro, passei a escritura e paguei”

Manoel Estevam de Moraes começou a despertar para os negócios ao acompanhar o pai Zeca Estevam. Seu pai ganhou a maior parte da vida negociando secos e molhados e só depois dos 46 anos, na segunda metade da sua vida é que passou a cuidar da produção de uma propriedade rural. Muito provavelmente, foram nestes primeiros passos junto do pai que começou a ter percepção das oportunidades de negócio.

Além da venda de secos e molhados do pai que acompanhou até dez anos, o trabalho conjunto no açougue que o pai teve em sociedade com Tatão Dias em São Sebastião, também marcou sua experiência dentro das atividades comerciais. Porém, as oportunidades de negócios maiores só foram surgir na sua vida, depois que casado e com três filhos, tomando o rumo do sertão em 1937. O pouco dinheirinho, os três contos, que juntou e levou para o sertão, foram importantes para o início das atividades que mais adiante, com muito trabalho, foi construindo passo a passo, com auxílio da esposa, do pai e dos amigos com quem conviveu ao longo da sua vida.

“Cabo Verde foi comprada por 3 contos. Para comprar a Liberdade eu negociei a propriedade de lá da Baixada, que foi da herança. Antes eu reuni os herdeiros e comprei a propriedade lá de Saquarema. Aí eu tive como pagar 25 contos pela propriedade lá de Saquarema. Nesta época, eu já estava apanhando crédito nos bancos. Tio Silva é que foi avalista. Dei duas viagens para pegar assinatura dele. Pegar a assinatura e ir em Tatão Dias. Tatão Dias não conhecia banco. Ele tinha recursos, mas não conhecia banco. Eu fui lá falar com ele para ele avalizar. Fui lá apanhar e ele veio no Banco Vovô, que você não alcançou, que era ali na Rua da Quitanda, para ele fazer a ficha dele. Ele fez a ficha como avalista e eu apanhei 3 contos. Daí em diante, eu peguei de apanhar crédito.

Aí eu compro a propriedade lá e tinha comprado outra propriedade lá em Boa Vista com 5 alqueires, perto de Morro Alegre. Eu tinha comprado outra propriedade Brejo dos Patos e botei a propriedade no negócio da Liberdade. Sr. Didino foi ver a propriedade de Saquarema e não gostou. Aí ele apanhou a propriedade dos Patos por 5 contos. A Liberdade eu comprei por 45 contos. Foi a propriedade dos Patos e mais 40 contos. Vendi a propriedade de Saquarema por 28 contos. Quem me comprou não teve o dinheiro todo para dar. Eu devia 10 contos a Tatão. A parte que eu fui apanhar o endosso. Isso faz tanto rebuliço... Eu devia 10 contos a Tatão e Sr. Costa para me comprar a propriedade faltava 10 contos. Marcamos e fomos lá. Ele era amigo também de Tatão daí passei a dívida minha e ele me voltou os 20 contos com os 5 de lá, ficou em 25 contos. No final foram 50 contos para pagar a Liberdade e depois isso foi uma evolução... Isso foi um negócio muito rápido que eu ganhei um crédito no sertão e peguei a comprar tudo fiado, comprar boi, só a um homem aqui eu comprei dois carros aparelhados, carro de boi na época da mandioca. Ele deu sinal numa letra arranjava 500.000 réis e ia lá e pagava e arrumava mais 500.000 réis. Ia lá de novo e pagava e aí fui comprando as propriedades e no final paguei a Liberdade. Cabo Verde que era de 3 alqueires fiz negócio depois com 20 bois, 20 bezerros e botei aqui na Liberdade. A Liberdade quando comprei a Sr. Didino era 20 alqueires e comprei depois mais 5 alqueires encostado. Também comprei 5 alqueires de mato na porta do secador da Tipiti e botei os machadeiros para cortar lenha e fornecia lenha para Tipiti queimar a raspa da mandioca, aí puxei a corda. Isso em Bom Jardim era uma mata fechada, teve até tora para vender para Campos.

Sr. Didino só comprou a Liberdade com a solução de papai (Zeca Estevam). Quando ele veio viu a Liberdade trouxe Zeca Estevam para ver e só comprou quando Zeca disse que viria para a Liberdade, foi com essa condição. Ele comprou a Liberdade com toda a lavoura, com carro de boi, com fábrica de farinha por 14 contos, pagando a prestação ele comprou de Antônio Alves que tinha propriedade na praia de São João da Barra, o velho Tonico Alves é quem vendeu a Liberdade para Sr. Didino. Depois eu comprei dele por 50 contos. Naquele tempo tinha cem para vender e não tinha um para comprar.

Época boa foi a partir de 1941, foi quando a Tipiti veio para aqui. Assim que eu comprei a Liberdade a Tipiti veio para aqui. Era mandioca e os meeiros. Naquele tempo cheguei a ter na Liberdade uns 10 a 15 meeiros. Eles plantavam e me davam a meia. Botei um açouguezinho também na venda da esquina. Antes eu morava naquela casinha que derrubou na entrada da Liberdade. Da. Dora morou ali. Primeiro Sr. Didino mandou que eu fizesse uma casa de palha lá no fundo do curral. Eu empreitei para o sujeito fazer, ele fez a casa de palha embarreada por 250.000 réis. Aí Sr. Didino pegou um boi e me deu para ajudar. Sr. Didino foi um sujeito que me ajudou muito. Me deu o boi para ajudar o feitio da casa aí eu botei no açougue e foi rendendo o dinheiro. Aqui eu comprava porco e levava para Campos, caminhão de porco, comprava boi e vendia para Campos, as coisas era mais difícil e mais fácil de levar tocado. Levava e entregava aos açougueiros. Pegavam e pagavam direitinho naquele tempo o povo era mais sério. Eu não estou dizendo que comprei o campo lá e levei 5 anos para pagar. Por 225 contos, 22,5 alqueires eu comprei um campo lá em Muriquiba perto de Gargaú, depois de ter comprado a Liberdade, eu já tinha comprado Maneiro e Santa Rita, mas já tinha vendido, o negócio apertou e eu vendi, depois comprei lá em 1954 comprei lá...

Eu não disse a você que Sr. Nelson Menezes, pai do Mário Menezes, me vendeu, ele trabalhava numa repartição, eu comprei a Sr. Nelson por 260 contos, 60 contos no ano, 100 contos com 3 anos e 100 contos com 5 anos a propriedade da Ponta do Laudo eu negociei a daqui e detrás da igreja onde é a prefeitura hoje, fiz negócio com Tarquínio. Olha é muita coisa para a gente lembrar. Olha, o dinheiro a gente fazia mais fácil. Eu fui comprar esses 5 alqueires de mata lá em Bom Jardim em frente a Secador de Tipiti o velho era um velho sistemático, ele disse que só vendia a 20 contos e a dinheiro. Apelei para ele me dar um prazo e... não sei como arranjei o dinheiro, passei a escritura e paguei. É um negócio interessante. A gente fazia dinheiro, com mandioca, eu tinha uma turma de cortadores de lenha, o pai de Das Dores é quem tomava conta daqui, acompanhava o movimento no sertão enquanto eu ia na cidade fazer os negócios. Ele ganhava por mês para tomar conta do movimento, na Liberdade, Bom Jardim o corte de lenha, puxada de mandioca, ele tomava conta de tudo. Eu toda sexta-feira ia para Campos levava as coisas da roça para casa, no princípio eu ia de carona. O carro eu arranjei depois que eu já estava na cidade, eu não comprei logo imediato não. Tinha um vizinho que era mecânico de Ford, morava em frente da casa na Professor Farias na Rua Formosa. Ele era pai daquele rapaz que depois foi trabalhar lá na esquina de seu pai, era pai de Sr. Neco, o pai dele também se chamava Neco, trabalhava junto com o pai dele defronte a um campinho na Rua Formosa. É um mistério, lutei muito. Lutei muito! Andei muito! Saía daqui todo dia e ia lá para Beleza em Boa Vista, entrando no Arroz na divisa do sertão com Campos em frente ao engenho de São Diogo e ia lá para a propriedade. Ia de cavalo, saía de madrugadinha e chegava às tantas da noite. Tinha dia do cavalo estar andando e eu estava cochilando em cima do cavalo. Eu ia para lá para roçar pasto, botar os negros para roçar pasto, levava um litro de cachaça de vez em quando dava uma dose, tinha muita cobra. Tinha um morador lá que eu almoçava na casa dele. Olha, se eu for contar minha vida a você... Voltava à noite e outras vezes dormia lá, tinha um vizinho tratava de Belo Rego. A gente fazia as coisas, tão fácil que eu ganhei assim uma confiança com as pessoas. Tinha Zizi Paes e Ferreira Paes. Ferreira Paes foi prefeito e foi também diretor da Santa Casa e naquele tempo tinha um gado baiano e ele lá na Santa Maria na beira do Rio Itabapoana. Ele tinha uma fazenda lá e eu acertei com Zizi para comprar 10 novilhos a ele para matar, era um gado bom, um gado de 20 arrobas, me pegaram no carro, me levaram lá, botaram mais de 100 bois no curral para eu escolher. Aí eu falei para Zizi, vamos fazer uma coisa, você vai fazer a escolha para mim porque você tem mais prática do que eu. Ele escolheu 10 bois e um culhudo para reprodutor, 11 bois. Dei 1 conto e 200.000 réis nos bois fiado. Tudo eu comprava fiado.

Cheguei a ter muita gente trabalhando comigo, 10, 12, 15 machadeiros. Quando você chegava era uma zoada de machado doida. Junto com os meeiros chegava a mais de 20 pessoas. Eu e compadre é que tomávamos conta. Quando da minha saída era Manuel Pequeno que respondia por mim. O nome certo dele é Manoel José dos Santos, o pai de Das Dores.

Eu fiquei com o crédito bom porque eu andava direito e naquela época havia uma outra modificação que não há hoje. Os bancos conheciam tudo, o sujeito que tinha crédito era o sujeito que tinha propriedade. O sujeito que não tinha nada não valia nada. A propriedade era que abria as portas. O Banco do Brasil é que deu uma cobertura, na época que seu pai estava lá, deu uma cobertura muito grande. Depois da guerra melhorou muito. Quando veio a cana para aqui, para a Liberdade e para a região, em 1974, ou um pouco antes, eu fui no Banco do Brasil e apanhei um empréstimo para fazer terraplanagem na Liberdade que na época era só mato, capuera e murundu. E eu fiz terraplanagem em tudo financiado pelo Banco do Brasil. Herval Corrêa é que fez o serviço para mim. Era um preparo para gado ou para plantar. Nesta época Francisco tratava de caminhão, fez uma casinha para botar um negócio na beirada da estrada. Francisco aí fez um dinheirinho e eu fiz um arrendamento a ele com contrato. Então eu assinei para ele comprar caminhão, para ele comprar embarcadeira, para comprar arado, comprar adubo, tudo pelo Banco do Brasil em 70 e pouco.

Nesta época Francisco acertou comigo e pegou uma parte da terra para plantar. Aí Francisco enriqueceu. Fiz primeiro a terraplanagem. Comparava o adubo no banco e tinha um ano de carência, sem juros e depois ainda tinha um tempo de carência se não pudesse pagar. Empréstimo que a gente chegava no banco e fazia a proposta tinha o avalista eu nunca me esqueço que tinha o Banco Vovô ainda e o Banco do Brasil velho, eu apanhei 20 contos no Banco do Brasil, Sr. Maurílio de Souza era o avalista o padrinho de Carlinhos e faltando uns quinze dias para vencer, eu só arranjei 10 contos. No Banco do Brasil emprestava e em quatro meses você tinha que pagar para levantar o empréstimo de novo. Era Sr. Monteiro que seu pai durante muito tempo fez declaração para ele. Morava na Rua Conselheiro Otaviano, lá onde é o Hospital Dr. Beda. Aí eu cheguei lá no Banco do Brasil, faltando dez ou quinze dias, estava assim de gente, era antes de 1970, cheguei lá esperei ele atender todo mundo e fiquei por último. Só depois que tido mundo fui embora eu sentei para conversar com Sr. Monteiro. Ele perguntou o que o senhor está querendo. Eu disse Sr. Monteiro vou falar um negócio e sei que não é fácil do banco, mas talvez o senhor dê um jeitinho para mim que eu peguei um dinheiro aqui, vai vencer tal dia , mas só tenho 10, será que não tem um jeito não. Ele aí rodeou a cadeira e foi lá dentro. Fiquei esperando e depois voltou falando que tinha uma solução boa e disse: Sr. Estevam eu vou encher uma letra aqui de dez contos, o senhor apanha o aval, retira o dinheiro e no dia o senhor paga o banco. Agradeci a ele. Sr. Monteiro era um homem turro. Eu acertei isso com ele porque eu fui antes, se eu deixasse vencer ele me brecava.

Francisco não tinha terra não. Depois que ele me pediu ali. A primeira cana que eu plantei na Liberdade, plantei sucano de arado de veca, a cavalo dentro de onde era capuera onde era mandioca, o cara segurando no arado fazendo aquele sulco e chamilhando cana sem botar adubo nem nada. Mamãe era viva ainda, depois da mandioca em sessenta e pouco. Eu fui um dos primeiros a plantar cana no sertão a não ser Marinszinho já tinha um engenho aqui. Ele tinha cana para o engenho dele mais ninguém. Mais ninguém. Ele moia a cana dele. Foi dono da cachaça. O engenho dele entrava em Imburi. Era perto da Santa Luzia onde tem o posto na chegada de São Francisco. Aquela propriedade ali também era dele. A cana não deu muito boa não, mas deu um bocado de cana. Ele veio com um caminhão, fez um aterro no brejo, ele mesmo chegava na roça para carregar o caminhão, com os camaradas. Esculhambava os camaradas, os camaradas respondiam a ele. Eu nunca vi um patrão rico e desajustado com os empregados como ele. Eu vendia cana para ele vir pegar na roça. Ele cortava e apanhava, isso foi antes de Francisco começar, depois foi outra forma. Eu já tinha feito a terraplanagem.

Com Francisco, ele me dava 25%, eu fiz contrato, eu botei ele na cena e eu fiquei na garupa. Ele pagava os empréstimos e as despesas. Eu apanhava os 25% na usina, eu não tinha nada nem com o carreto, mas com a usina passar a dar o carreto, foi caducando o negócio do carreto. Tanto fazia eu apanhar na roça, quanto na usina, porque era a usina que apanhava na roça. E depois ficou naquela, ficou naquilo mesmo e eu só apanhando os 25%, mas ele teve muito benefício e ele arranjou muita coisa que acabou não valendo de nada porque hoje está quebrado. Comprou fazenda, comprou isso, comprou aquilo... os filhos ajudaram muito, mas depois desorganizaram, não tem um que puxou ele, não tem um”.

Com exceção dos dois primeiros parágrafos introdutórios deste capítulo, todos os demais foram transcritos de uma gravação feita no dia 21 de novembro em sua casa em Santa Rita. A memória prodigiosa aqui demonstrada neste relato permite identificar grande parte da trajetória e a forma adotada nos negócios que foi realizando na sua vida.

Relação das propriedades que possuiu ao longo dos seus 93 anos de vida:

1- Fazenda Cabo Verde (3 alqueires) – comprada por 3 contos quando veio para o sertão e vendida por 20 contos – localizada próximo a Morro Alegre – distante 3 Km da Liberdade;
2- Fazenda Saquarema – comprada a parte dos herdeiros da esposa por 25 contos e vendida por 28 contos;
3- Fazenda Liberdade (24 alqueires) – comprada a Sr. Didino por 50 contos – fazenda que foi administrada por Zeca Estevam quando Sr. Didino a adquiriu em 1935;
4- Fazenda Brejo dos Patos (5 alqueires) – perto de Beleza e Boa Vista;
5- Fazenda Bom Jardim (5 alqueires) – adquirida como mata em frente ao Secador da Tipiti perto de Valão Seco por 20 contos e vendida por 160 contos;
6- Fazenda Paineiras (13 alqueires) vizinho de Santa Rita;
7- Fazenda Santa Rita (12 alqueires) – vendeu junto com Paineiras por 225 contos;
8- Fazenda Santo Antônio (5 alqueires) – em Bom Jardim, comprada por 3 contos e vendida por 14 contos;
9- Fazenda Muritiba (22,5 alqueires) –também chamada de Ponta do Laudo, localizada próximo a Gargaú, comprada por 260 contos de Nélson Menezes e trocada com a Fazenda da Demanda;
10- Fazenda da Demanda (13 alqueires) – é considerada junto com a Fazenda de Macabu que ficava atrás do fórum; foi adquirida em negociação e troca com Sr. Tarquínio que ficou com a propriedade de Ponta do Laudo; esta segunda parte foi negociada com Alicio Valdi, parte em dinheiro e parte a prazo com recebimento de juros parcelados até o final da década de 70;
11- Fazenda da Linha (20 alqueires) – localizada nos fundos de Santa Clara foi comprada por 1.300 contos e vendida por 3.500 contos.


As grandes amizades
“Amizade eu tive muitas, mas amizade sincera é meio difícil”

Manuel Estevam sempre foi pessoa de cultivar suas amizades. Quem o conhece de perto sabe o valor que dá e o sentimento que nutre pelas pessoas a quem considera. Além de tudo em toda sua vida, os seus relatos sempre foi homem de reconhecer as pessoas que por ele teve consideração e amizade. Nunca foi pessoa indigna, desleal e ingrata.

O que conseguiu construir em termos de trabalho e posses divide com aqueles que lhe deram crédito e confiança que também, com a sua retidão nas atitudes, fez por merecer. Os relatos abaixo ajudam a dar reafirmar este testemunho:

“O primeiro amigo que eu tive foi o meu pai. Segundo que mais me ajudou a me levantar aqui foi compadre Didino que foi padrinho de Edalmir. Estes homens me ajudaram e eu tive diversos homens que me auxiliaram, naquele tempo era fácil arrumar o dinheiro porque tinha crédito para estes homens dar a gente. Se estes homens que eram conhecidos do comércio, homens velhos e avalizavam a gente eles me ajudavam. Como o Sr. Velho Gomes o irmão de Tatão Gomes eu comprei esta propriedade da Linha por 1.300 contos, 21 alqueires, depois da Liberdade, depois de vender a Ponta do Laudo, uma parte da fazenda Muritiba. Dois homens também que me ajudaram foi Tatão Dias lá na Ponta da Areia. E foi os primeiros 3 contos que eu apanhei no Banco Vovô na Rua da Quitanda. Eu apanhei os 3 contos com ele emprestado eu tive que dar a Tio Silva e posso dizer meu pai de criação, porque fui criado com ele e tive que dar a Tatão porque era muito amigo de papai. Tio Silva eu dei uma viagem lá para apanhar assinatura e Tatão não tinha ficha no banco e aí Tatão dizia que eu é que dei crédito a ele, porque fui lá falei com ele, ele veio em Campos fez a ficha e quer dizer que estes homens é que foram os principiantes e eu comecei com eles. E depois foi Sr. Velho Gomes porque comprei esta propriedade por 1.300 contos para dar 800 e ficar devendo 500 e eu não tinha um tostão”.

A irmã Ceinha faz coro com a grande amizade de Sr. Didino: “Sr. Didino é que levantou a nossa família aqui no sertão”. Manuel prossegue: “compadre Didino foi uma pessoa especial. Ele gostava de dividir as coisas, de ajudar as pessoas. Sua família às vezes até brigava por este seu jeito. Recorda-se de que certa vez, fazendo negócios, Sr. Didino comprou uns porcos em Gargaú. Levou os mesmos para Campos e fez um bom negócio com os mesmos. Fez questão de procurar o homem de quem havia comprado os porcos para dividir os lucros. O homem não queria receber, pois havia recebido o dinheiro da venda que considerava efetivada e Sr. Didino insistindo que ficasse com a metade do lucro que obtivera com o negócio. Assim era Sr. Didino quando ia de Campos para o sertão com sua caminhonete, fazia compras e dava uma coisa para um outra para outro. Sr. Didino tinha nesta época muitos negócios. Aquele negócio de comprar e vender, não vinha só daqui não, vinha lá de Donana e outros cantos. Ele comprava e depois vendia propriedade. Ele e seu Tero Batista, naquele tempo se falava muito em comunismo e eles tinham essa idéia, tanto que Sr. Tero repartiu sua fazenda dividiu sua terra em lotes e deu para seus colonos cada um cuidar da sua parte, contando que o comunismo vinha”. A irmã Ceinha participando da conversa relembra outras passagens com Sr. Didino: “Ele era uma pessoa que pensava na frente. Ele dizia que esse negócio de casamento ia acabar, que o pessoal ia ficar junto. Ele dormia lá em casa e à noite antes de dormir ele e papai ficavam conversando e a gente ouvia. Manoel também se recorda que Sr. Didino apesar de ser muito bom e de ajudar muita gente: “não gostava de dever favor a ninguém, ele tinha que pagar”. Ceinha se lembra ainda que no final da vida dele as coisas se complicaram, ficou sem dinheiro, separou-se da mulher Magnólia e chegou a “precisar de dinheiro para proteger um filho”.

“Amizade eu tive muitas, mas amizade sincera é meio difícil. Eu tive uma grande amizade com Miquilista (Antônio de Oliveira Rangel). Miquilista era pai de Enéas Rangel que foi quem me ensinou a dirigir. Eles tiveram uma fábrica aqui e moravam em Campos. Quando eu conheci Miquilista ele estava numa casa branca que tinha ali, que era de Nhoto Passarinho, para o lado da Rua do Barão antes de chegar a avenida Pelinca do lado era tudo cana.. Aquilo era cercado. Ele gostava de cavalo de corrida e foi dono da empresa Gargaú. Eu tive Enéas como muito meu amigo. Aprendi a dirigir com ele, quando eu já tinha o Ford 29. Eles iam comigo para a fábrica de farinha e voltava e aí eu fui aprendendo.

O velho Noronha juntou com uma portuguesa e criou a filha que ela havia trazido. Colocou a filha da portuguesa para estudar até se formar, tendo sido caixa do armazém. Enéas conheceu a filha da mulher de Noronha, pegou a namorar e casou com ela, que continuou na caixa do armazém.

Da. Maria casada com Enéas era uma mulher fina. Ela comigo tinha uma comunicação que às vezes ela me complicava... mas como eu era muito amigo de Enéas eu fazia de bobo, porque naquela época havia respeito, não havia este negócio de ter comunicação com outro, o negócio era mais severo. Da. Maria fazia e ... quando chegava lá ela vinha na porta da caminhonete conversar comigo, mas aquilo tido é porque às vezes o sujeito confunde uma coisa com outra. Tem muita gente que confunde. Mas eu cheguei a ponto da conclusão de que as pessoas, que eu tive muito amigo, que naquela época havia respeito. Eu considerava amigos os homens mais idosos. Aqui mesmo no sertão se eu for contar, tem uns vinte ou trinta homens mais velhos que se tornaram amigos meus e não era para explorar, porque estes homens mais velhos é que me levantaram aqui no sertão. Eu procurei andar direito com eles e eles me levantaram”.


A casa da Professor Faria
“Era uma casa onde se gerou muitas amizades”

Um ano depois de trazer as crianças para se curarem do impaludismo, resolveu sair do aluguel. Os negócios no sertão estavam tomando rumo e as perspectivas com o crédito que estava ganhando, eram promissoras. Não foi difícil fechar negócio com Sr. Higídio de Souza Pinto, em 1942, para adquirir a casa da Rua Professor Faria, número 37 no bairro que já na época se chamava Avenida Pelinca.

Não era uma casa nova. Era uma casa regular na face da rua em terreno comprido com 50 metros de fundo por 11 metros de largura e boa vizinhança. Antes da mudança mandou dar uma geral, com nova pintura a cal. A garagem também ficava inicialmente na face da rua e naquela época servia para guardar a lenha que era trazida da roça para alimentar o fogão da casa. A casa sempre teve um vasto quintal com diversas árvores frutíferas. Pés de maçã, figo, abio roxo e branco, manga, abacate e pé de jambo, o único existente até os dias de hoje. Além destas frutas havia um vasto parreiral plantação pouco usual na região. Além disso havia um tanque que inicialmente era usado para guardar água e que logo foi transformado num chiqueirinho para porcos.

Nesta mesma época em que a casa foi adquirida e alguns dias depois da mudança em 26 de julho, faleceu na Vila Maria, palacete de sua propriedade, o Dr. Dr. Atilano Crisóstomo de Oliveira, usineiro proprietário da Usina Mineiros na Baixada deixando viúva Da. Finazinha. Os jornais do dia seguinte, 27 de julho, também faz referência a um acontecimento de fato inédito na cidade. Por volta das sete da manhã durante cinco minutos nevou sobre a cidade.

A escritura definitiva da casa só foi passada no ano seguinte, em 1943. Ali nasceram os dois últimos filhos Emilton em 1946 e Eloísa em 1948. Edalmir tinha apenas 3 anos de idade. Os três filhos maiores, Emilse, Ecival e Eliete, tinham respectivamente 10, 8 e 6 anos. Da. Dora, nesta época já passou a dividir as tarefas da casa com os três filhos. As duas filhas se encarregavam de limpar, varrer e encerar a casa. Uma semana Emilse e na outra Eliete. O enceramento era um trabalho pesado para a época onde ainda não existia a enceradeira. O serviço era feito com um escovão que era um pedaço de ferro fundido pesado sob o qual se colocava o pano para dar brilho depois que a cera já havia sido passada. Eliete conta que Emilse, a mais velha, costumava adular Ecival com outras vantagens, fazendo doces ou outros quitutes para ele que em troca se encarregava do escovão a parte mais detestada do serviço doméstico para as crianças. Especialmente nos sábados, dia em que Manuel vinha da roça, normalmente na parte da tarde, a casa ficava um “brinco” o corredor principal comprido que levava aos quartos e à sala, ficava de parecer um espelho. Eliete gostava muito de flores e na sua semana de limpeza, ao final dos serviços colhia rosas ou dálias no jardim para distribuir pela casa. Quando as flores do jardim não estavam bonitas pegava umas moedas e ia até uma casa de Da. Bionda na Rua Formosa para comprar as flores que embelezariam a casa depois da limpeza.

Eliete não por dever especificado pela mãe, mas por gosto, cuidava de uma plantação de dálias na lateral da casa acompanhando o muro lateral. Recorda-se das épocas em que as dálias floresciam e de uma determinada vez quando uma senhora passou e encantada com a floração das dálias, parou e repetiu por diversas vezes seu encantamento com a beleza das dálias. O encantamento ou a inveja fez com que no dia seguinte toda a plantação amanhecesse completamente murcha.

A casa antes da primeira reforma possuía três quartos, copa, cozinha e a sala que dava face da rua, assim como o quarto do casal que saía na sala da frente e tinha outra janela na face da rua. Na primeira reforma da casa, efetuada dois anos depois, uma nova garagem foi construída nos fundos, liberando a lateral da casa para a entrada do carro. Esta casa passou a servir de ponto de apoio para os irmãos e pais de Manuel quando vinham à cidade. Nestas ocasiões era comum Da. Dora tirar os filhos homens do quarto de dentro da casa para ceder aos visitantes e alojá-los na garagem. Uma boa estória é contada sobre uma destas noites dormidas por Ecival e Edalmir na garagem. Segundo os demais irmãos e ele próprio, Edalmir sempre foi muito medroso, costumava se espantar com a própria sombra. Desta vez, não foi a sombra, mas cachos de banana que espantou não só Edalmir, mas também Ecival: era comum Manuel ou Da. Dora pendurar nos caibros do telhado os cachos de banana que estavam ainda amadurecendo. Ao se locomover no escuro no ambiente da garagem, Edalmir se esbarrou num destes cachos e gritou olha a cooobbbrrraaaa! Enquanto gritava correu para a saída da garagem jogando Ecival longe ao chão que tentava entrar na garagem.

Por falar no medo exagerado de Edalmir, os irmãos contam que em 1951, ele acompanhado dos irmãos haviam ido ao Automóvel Clube assistir a um jogo de basquete do Automóvel Clube contra um time famoso do Rio Janeiro. Na época o Automóvel Clube possuía uma grande equipe e fazia frente aos grandes clubes do Rio que vinham disputar partidas em Campos. Como a quantidade de gente presente ao jogo era grande, Edalmir acabou se perdendo de Ecival e Eliete. Pensando que Edalmir já tivesse tomado o rumo de casa, ao final do jogo por volta de onze e meia da noite, Ecival e Eliete se dirigiram para casa na Rua Professor Faria junto de um grupo grande de amigos. Ao chegar verificou que Edalmir não havia chegado e mesmo após um tempo aceitável de espera, nada de Edalmir chegar. Estimulado pela mãe, Ecival rumou em direção ao centro para tentar localizar Edalmir. Percorreu todo o centro onde não havia praticamente mais ninguém, finalmente resolveu olhar a Catedral. Lá encontrou Edalmir rezando apavorado numa missa permanente que estava sendo feita em homenagem a uma santa que percorria o interior em romaria. Edalmir com medo das ruas escuras, havia se refugiado na Catedral, por considerar um lugar seguro e também na esperança alguém conhecido que pudesse ajudá-lo a retornar para casa. Já havia identificado Gabin que tinha casa próxima a Rua Professor Faria e aguardava seu retorno à casa para acompanhá-lo. Edalmir ao avistar Ecival quase se borrou de tanta alegria e alívio. Desceram, a Rua Sacramento e seguiram pela Rua Formosa em direção à casa. Depois de toda esta epopéia, os dois já estavam na altura do mercado, quando ouvem um homem gritar no escuro em voz alta “Ooooollllhhhhaaaa o qqquuiiiiiaaaabbboooo vvveeerrrdddeeee”!!!. Edalmir, magro e alto, parte em disparada feito bala, à frente de Ecival que chega em casa quase dez minutos depois dele, que já se encontrava sentado ao lado do portão ainda de olhos arregalados com o susto.

Nesta época a Rua Professor Faria não tinha calçamento sendo o piso de chão batido. Nas épocas de maiores chuvas era comum se formar grande lamaçal no pequeno trecho da Rua Professor faria que liga a então Rua dos Bondes (atual Conselheiro José Fernandes) com a Rua do Barão da Lagoa Dourada (ou simplesmente Rua do Barão). Eliete recorda-se que ainda na época de namoro com Joemio, certa vez, vestido impecavelmente como era seu costume, num novo pulôver caiu e se sujou todo, tendo feito a reclamação que só a viria para namorar quando não houvesse aquele lamaçal.

As filhas mais velhas Emilse e Eliete, prendadas nas coisas da cozinha pelos estímulos da mãe, começaram também a procurar atividades que ajudassem a passar o tempo e a trazer alguma renda. Nesta época, em 1950, as duas começaram a fazer doces por encomenda para aniversário, festas e casamentos. Emilse preferia confeccionar os bolos, enquanto Eliete fazia doces de nozes, amêndoas, etc. Preparavam grandes mesas para festas, a ponto de serem identificadas pelos professores do Colégio São Salvador onde estudavam. A primeira grande encomenda foi para a família do próprio professor de Desenho das duas, Wilson Chami. Outras encomendas freqüentes eram para a família do Sr. Antunes, um dentista da Rua Benta Pereira. As maiores encomendas eram para Da. Nair, mãe de Nélio Márcio, bancário contemporâneo de Joemio no Banco do Brasil. Para atender estas encomendas Eliete se deslocava para casa de Da. Nair, onde permanecia por uma semana das oito até às dezoito horas na preparação de 2.500 doces para as festas de Cosme e Damião. Por mais de cinco Emilse e Eliete mantiveram estas atividades.

Outro caso muito engraçado mais uma vez tem Edalmir como personagem principal. O próprio reconhece que era à época muito medroso. Lembra-se que aos doze anos, também em 1951 os tios Amaro e Da. Quininha estavam hospedados, como faziam comumente os irmãos de Manuel. Já era noite e os adultos estavam todos tomando o chamado café da noite antes de dormir. Naquela época eram cinco as refeições diárias: café da manhã, almoço, café da tarde, janta e café da noite. A conversa dos tios versava sobre as dificuldades que estavam tendo na roça com o aumento da incidência de ratos no paiol onde se guardava o milho. Eram ratazanas enormes na descrição do Tio Amaro, que chamava os bichos de cuíca. Edalmir acompanhava com atenção e perplexidade a conversa sem emitir comentários. Ao final do café os tios se dirigiram à sala da frente para dormir e os demais cada um para o seu quarto. O quarto dos meninos, das meninas e o quarto do casal Manuel e Da. Dora. O quarto dos meninos tinha três camas. Uma mais distante onde Emilton já dormia. As outras duas camas eram praticamente encostadas. Ecival havia acabado de chegar do colégio. Estudava Contabilidade na Escola Técnica de Comércio no período da noite, enquanto de dia trabalhava na loja chamada A Exposição. Ecival ao chegar cansado depois da dupla jornada, como era de costume se dirigiu rapidamente para o quarto preocupado com o horário de trabalho no dia seguinte cedo. Ecival e Edalmir praticamente entraram no quarto juntos para dormir. Edalmir não conseguia se desvencilhar das histórias da cuíca contada pelo tio. Ecival já pegara n sono quando Edalmir ouve um ruído baixo, mas insistente como se estivesse arranhando o chão. Tentou esquecer e puxar o sono, mas o ruído se tornava mais insistente embora não muito alto. Não resistiu e chamou Ecival que acordou firmou o ouvido e nada. O barulho realmente sumira. Voltou a tentar dormir, mas o ruído voltara baixo e insistente como antes. Era como se existisse alguém arranhando o assoalho, que nas casas da época eram suspensos em aproximadamente 50 centímetros do chão, fazendo com que a reverberação de qualquer som no piso soasse maior que o natural. Voltou a ficar impaciente. Quanto mais nervoso ficava mais o ruído intensificava. Voltou a acordar Ecival que incomodado tentou mais uma vez ouvir algo, mas incrivelmente o ruído cessava por completo quando Ecival estava atento. Aborreceu-se com Edalmir e ameaçou dar-lhes uns tabefes se voltasse a acordá-lo com bobagens, já que precisava descansar para estar em condições de trabalhar no dia seguinte. Edalmir não teve argumentos e virou para o lado tentando dormir. Passado uns quinze minutos, com o sono completamente afastado, voltou a ouvir os arranhões no chão. Botou as mãos no ouvido tentando dormir. O barulho agora um pouco mais intenso passou a ser ouvido mesmo com as mãos no ouvido. O desespero foi aumentando. Diante da situação, tomou coragem ficou em pé em cima da cama e conseguiu chegar até o interruptor, que naquela época era pendurado pelo próprio fio da luminária. Ao acender a luz nada num olhar de relance nada observou. Um pouco mais tranqüilo resolveu ficar livre de vez do medo ameaçador que lhe impedia o sono e foi conferir que nada de anormal existia embaixo da cama. Daí o susto não foi contido pelo grito que ecoou por toda a casa talvez até por toda a rua: A Cuuuuuííííííííccccccaaaaa!!!! O tamanho do berro de pavor de Edalmir fez os dois irmãos acordarem e se dirigirem ao mesmo tempo para a porta entupindo a passagem, com um tentando se sobressair ao outro à base de cotoveladas. Acabaram ambos caídos com ainda Edalmir gritando: cuícaaaa! cuícaaaa! cuícaaaa!

Todos que dormiam na casa acordaram apavorados com os gritos e a algazarra e sem entender o que estava acontecendo, até que o Tio Amaro resolve olhar o que havia embaixo da cama e descobre que uma galinha trazida da fazenda que por estar “choca” ou prenha não havia ido para a panela estava encorujada embaixo da cama espantando as crianças. Depois de tudo isso, mesmo com o passar do medo foi difícil reduzir a adrenalina para se pegar no sono na casa da Rua Professor Faria. Edalmir ainda provocou Ecival quando este reclamou do seu medo, dizendo que não havia sido apenas ele que havia corrido diante da situação.

Edalmir nesta época era considerado o queridinho das empregadas. Tinha um bom relacionamento com elas enquanto Da. Dora acompanhava de longe o movimento dos três filhos. A empregada na ocasião era Creusa que era “certinha com Edalmir”. Certa vez, Edalmir foi ao baile no Automóvel Clube que na época se chamava Convívio Social. Voltou tarde para a casa encontrando o tio Zizinho andando no quintal de um lado para outro. Edalmir se espantou e o tio disse que já tinha batido na porta diversas vezes sem resultado. Edalmir então disse para ele bater de novo e dizer que era Edalmir. Afastou e viu o tio insistir sem resultado, falando baixinho no canto da porta é Edalmir, minha filha, é Edalmir.

Foi uma época em que Edalmir estava aproveitando a vida e adorava uma farra chegando bem mais tarde que os outros filhos. A aproximação de Edalmir com as empregadas fazia Da. Dora apertar o cerco. Em outra oportunidade ficou aguardando Edalmir chegar como sempre mais tarde. Quando Edalmir abriu o portão, ela se escondeu por trás da porta da copa, quando ele já havia passado em direção aos fundos, ela abriu rápido a porta e gritou: - Sim senhor! Edalmir, também rápido, em ato reflexo se voltou para a mãe e com o dedo indicador na vertical colado à boca, respondeu: - Shiiuu! Tem ladrão nos fundos. Da. Dora inicialmente até se espantou, mas, em seguida lembrou-se do medo costumeiro de Edalmir e que seria improvável ele estar correndo atrás de um possível ladrão, mas aí Edalmir já estava salvo do flagrante de Da. Dora.

Da. Dora continuou controlando ou pelo menos tentando controlar as chegadas de Edalmir. Outra feita passou a colocar uma bacia grande de roupas atrás da porta da dispensa que dava acesso ao quarto de empregada por dentro da casa. Só que desta feita quem se atrapalhou com a bacia foi Francisco, cunhado mais novo, irmão de Manuel que alegando insônia durante a noite em que estava hospedado na Prof. Faria se dirigiu aos fundos no meio da noite e acordou e assustou toda a casa com o barulho da bacia atrás da porta. Mas de todos estes casos, o mais escandaloso acabou sendo um outro vivido por Edalmir. Manuel incomodado com as noitadas do filho Edalmir já havia ordenado que não se deixasse a porta encostada para ele. Se quisesse continuar nesta vida que arrumasse um lugar para dormir. Porém, era um sábado de carnaval. Sabendo das ordens, Edalmir se preparou para o grito de carnaval na Rua 13 de maio. Foi até o quarto dos fundos atrás da garagem levou a roupa de cama, o travesseiro, pregou dois pregos nas duas bandas da porta que se abria ao meio, passou um arame entre eles e partiu para a farra momesca. Não sabia que a mãe, precisando de ajuda nos trabalhos domésticos e sabendo que as empregadas mais novas, eram fontes de perturbação, arrumou uma senhora de idade de uns 65 anos que chegou para dormir e iniciar o trabalho no dia seguinte. Edalmir chegou, cansado e alegre do baile. A noite já estava quase dando vez ao raiar do dia. Espantou-se quando viu o arame solto. Forçou a porta e percebeu que ela estava fechada por dentro. Não estava em condições de fazer grandes avaliações sobre o que havia acontecido. Pressionou a porta e viu que ela estava bem fechada. Deu dois passou para trás e com os ombros jogou as duas bandas da porta no canto ao mesmo tempo em que viu aquela senhora seminua sentada na cama espantada gritando: ttaaaarrraaadddoooo!!! Edalmir espantado diante da situação ainda ouviu a mulher continuar a gritar só que agora pedindo: ssoooccoorrrrroooo!!! A gritaria acordou todos na casa e até no vizinho que foram ver o ocorrido. Edalmir se aproveitando do tumulto e da presença das pessoas, de fininho saiu e foi para seu quarto dentro de casa e dormiu o sono dos justos! No dia seguinte teve que ouvir novos sermões e determinações que Manuel Estevam passou tornando ainda mais rígido o controle sobre suas noitadas. E no final ele tinha até razão desta feita era inocente.

Passado uns tempos depois que Edalmir acomodou um pouco suas noitadas, voltou ao habitual das farras noturnas. Certa vez, já tarde da noite, os dois irmãos Ecival e Emilton no quarto ouviram o portão abrir e alguém entrar. Ecival fala para Emilton: - Vamos dar um susto em Edalmir. Emilton pula da cama, corre até a porta da copa que estava com uma cadeira apoiada e espera. Quando no escuro vê a mão puxar a cadeira para empurrar a porta, Emilton se abaixa, agarra a perna de quem estava chegando e solta um grito forte. O grito acaba sendo seguido por outro do lado de fora da casa. A pessoa corre desesperada com o susto para os fundos da casa. Só aí Emilton percebe que ainda não era Edalmir que estava chegando e sim o pai Manuel Estevam. Superado do susto Manuel entra em casa, dá uma bronca sem muita convicção perguntando se eles não tinham mais nada para fazer, enquanto Emilton nestes breves instantes já havia se escondido por debaixo da colcha em sua cama.

Entre 1959 e 1960 os jovens da rua e das redondezas alugaram a casa de Da. Lélia, mãe de João Lubanco também na Rua Professor Faria e transformaram num Clube Social ao qual deram o nome de Chamarogue. O Clube ajudou no aprofundamento das relações dos jovens da redondeza. A primeira diretoria tinha na presidência Paulinho Gebara e na tesouraria o representante da família Estevam de Moraes, Edalmir então com 20 anos de idade. O Clube era movimentado principalmente com os bailes no final de semana, principalmente no sábado. Em 1960 o Clube contratou e trouxe a Campos para animar uma festa junina, artistas famosos na capital, como: Blackout, Ruth Barros e até o hoje consagrado Moreira da Silva.

Muitas emoções foram vividas no ambiente desta casa. Alegria pelo nascimento dos filhos, o casal mais novo Emilton e Eloísa e momentos dramáticos quando da notícia da perda do filho Ecival, dois dias depois de sofrer um acidente de automóvel. Muitas festas de aniversário e principalmente as comemorações natalinas comandadas nos últimos anos de vida por Da. Dora ou carinhosamente como era chamada pelos netos, Vovó Dora.

Momentos difíceis também foram enfrentados com galhardia e determinação. Nos idos de 1956 a situação financeira dos negócios de Manuel Estevam estava apertada. Precisou vender o carro para saldar compromissos, mas, enfrentava as dificuldades com esperança. A esposa Da. Dora nunca esmorecia. Sempre foi um esteio na condução das coisas da casa. Nesta época, para ajudar a superar as dificuldades financeiras, Manuel mandava diariamente do sertão latos de leite para serem comercializados para ajudar nas despesas da casa. O leite vinha pelo ônibus que Emilton pegava no ponto final no mercado. Ainda antes de ir para o Colégio Eucarístico onde estudava, Emilton fazia a entrega aos fregueses já tratados. O dinheiro do leite servia para as pequenas despesas que não podiam ser adquiridas na nota no armazém de Sr. Lopes, localizado na esquina da Rua dos Bondes com a Rua Formosa. As despesas maiores ficavam anotadas no caderno e eram renegociadas quinzenalmente com abatimento dos débitos, quando Manuel Estevam vinha nos finais de semana. Na época mais apertada dificilmente conseguia zerar o débito, fazia quitação de uma parte e o restante era acrescido na nota seguinte.

Nesta época de dificuldades vinha do sertão de ônibus ou de carona em caminhões carregados com latões de leite, ovos ou madeira. Chegou a vir em cima das cargas da carroceria destes caminhões, quando os horários dos ônibus eram impróprios. Não era uma viagem simples, especialmente quando chovia. A estrada de barro ficava escorregadia e muitas vezes quase intransitável. Aproveitava as suas vindas nos finais de semana para abastecer a casa com os produtos da própria lavoura. Trazia cachos de banana, caixas com vinte a quarenta dúzias de ovos por semana. Carnes e queijos também eram trazidos do sertão. Alguns queijos eram vendidos na venda do Sr. Ivo na esquina da Rua Benta Pereira com Rua do Barão. Quando vinha de ônibus ou mesmo de carona costumava descer na cabeceira da ponte com todo este material. Sozinho ia fazendo o transporte destes produtos de ponto em ponto até chegar em casa. Da ponte levava até a esquina da beira-rio com Rua Baroneza. Retornava para pegar o restante da carga por três ou quatro viagens. Dali seguia até a Alberto Torres, em seguida até a Rua dos Bondes e dali até o armazém do Sr. Lopes de onde os filhos e pessoas amigas ajudavam na última parte do transporte até a casa. Por tudo isso, normalmente chegava em casa fisicamente muito cansado, mas sempre com coragem e determinação de que as coisas iam melhorar. Os filhos mais novos Emilton e Eloísa tinham nesta época 10 e 8 anos respectivamente.

Era comum também trazer um pouco de lenha. Até determinada data quando ainda não se tinha o chuveiro elétrico, no inverno, instalou uma serpentina junto ao fogão de lenha. Era um cano de ferro galvanizado que saía da caixa d’água, passava por dentro do fogão de lenha e com isso aquecia a água para o banho. Os banhos não podiam ser muito demorados para se aproveitar a caloria dos canos passados dentro do fogão. Para isso os banhos dos meninos e das meninas nesta época eram juntos para ganhar tempo. As brigas aconteciam entre as crianças para ver quem ficava mais tempo. A forma de contar o tempo de cada um no banho, normalmente, era pela contagem até um determinado número. A rapidez com que se fazia esta contagem era um dos motivos de briga, tão comuns entre as crianças. Vez por outra precisava da intervenção de Da. Dora que com o tamanco na mão fazia as coisas tomarem rumo, não sem antes os berros ecoarem a partir das tamancadas.

Mais tarde no final dos anos 60 a casa era tomada constantemente pela presença dos netos que cresciam quase na mesma proporção dos coelhos. Apenas os filhos de Emilse, que morava no Rio de Janeiro, ficava de fora das bagunças semanais dos netos. Os três filhos de Ecival, quatro de Eliete e dois de Edalmir faziam o alvoroço, especialmente nos finais de semana e nos períodos de férias quando se juntavam às filhas de Emilse. Da. Dora era uma pessoa sempre animada, não via dificuldades e ajudava da forma que podia a criar os netos. Estava sempre olhando o lado positivo das coisas. Assim foi a vida inteira. Tinha prazer em ajudar, até por isso era adorada pelos netos, a quem encantava com as novidades, fazendo questão de participar das suas brincadeiras, da amarelinha até e principalmente o víspora ou bingo que gostava de organizar. Ao mesmo em tempo que se divertia, conseguia controlar o farrancho de netos que na sua casa encontrava espaço para as brincadeiras em companhia dos primos.

A casa original foi derrubada no final em 1971. A nova casa só foi concluída em 1972. Até a casa ser concluída Da. Dora e Eloísa se mudaram para um apartamento na vila em frente a venda de Ecival e nos fundos da casa de José Madruga. Também em 1971 Emilton casou e passou a morar num apartamento do lado de Da. Dora também nos fundos na vila dos fundos da casa de Madruga.

Da. Dora e Eloísa voltaram apara a casa, agora nova e recém construída na Rua Professor Faria em meados de 1972. Dois anos depois, em 1974 morre Ecival. Um pouco antes a partir de uma conversa de Manuel com Ecival, Emilton para fazer companhia, tinha ido morar com a mãe e a irmã na Professor Faria. Da. Dora faleceu após as complicações de um aneurisma cerebral em 20 de junho de 1980. A partilha dos bens feita em 1983. Emilton ainda permaneceu mais um ano e meio, até 1984 na casa, numa época em que Eloísa havia ido morar em Niterói.

Na partilha da herança era pensamento de Manuel deixar a casa para Emilton, o filho homem mais novo. Porém, a pedido também da filha mais nova Eloísa, que queria ficar com a residência que lhe trazia mais recordações da mãe Doralice, Manuel a partir da concordância e da boa vontade de Emilton acabou cedendo e fazendo novo desenho na partilha com Emilton dividindo parte das terras da Liberdade. Como o próprio Manuel falou: “Eu tirei para Eloísa e Almeida a parte daqui e ela acabou querendo a casa. No final foi até bom, não foi mal esta divisão”.

A casa da Professor Faria hoje é habitada, pela filha mais nova Eloísa, já viúva e pelas filhas Ana Paula e Fernanda integrantes da terceira geração enquanto aguardam a chegada da quarta geração na casa adquirida há 62 anos pelo patriarca da família, Manoel Estevam.


A Partilha
“Tudo da minha idéia porque ninguém me forçou a fazer isso e também não me proibiram”

A partilha foi feita em 1983. Manuel Estevam começou a pensar nisso logo após a morte de Da. Dora em 1980. Ainda quando Ecival era vivo, eles já conversavam sobre esta questão da repartição dos bens adquiridos em vida. A percepção que passa a este autor, sem querer ser piegas, é a de que como todo ser humano tem orgulho do que construiu em vida e dos bens que conseguiu acumular como fruto do trabalho duro e honesto, mas não parece ser daquelas pessoas apegadas aos bens e às propriedades, se assim fosse não teria feito a repartição que fez ainda em vida. Sem ter grandes convicções religiosas, embora crente em Deus, como pode ser visto mais adiante, tudo isso parece mais uma virtude do velho Manuel Estevam.

Nas conversas Manuel Estevam falou espontaneamente sobre o assunto: “Eu sempre pensei em terminar e repartir, porque eu não recebi herança, então seria um orgulho poder deixar isso... eu também pensei que se eu não repartisse ia ser difícil para dividir, porque o apartamento que eu havia comprado só dava para ficar para um botando os dois juntos (a minha parte e de Da. Dora), a casa a mesma coisa então eu ... ...eu manobrei, pensei, consultei os travesseiros... eu tenho esse casal de filho daqui, achei que podia repartir a propriedade para quatro, a casa era para um, o apartamento para outro e a outra eu reparti para os dois filhos naturais. E tirei um alqueire lá da ponta, tudo da minha idéia porque ninguém me forçou a fazer isso e também não me proibiram. Só a parte que tirei para Eloísa e Almeida e eles preferiram trocar pela casa. A parte da Liberdade eu botei do mais velho para o mais novo e Joemio veio a mim e disse que Eliete, se pudesse queria a parte da beirada da estrada porque a mãe tinha morado lá. Aí eu conversei com Emilton e falei para ele trocar a parte dele com a parte da casa e não houve nenhum problema”.

O responsável pela partilha foi Aluísio Viana, cunhado de Edalmir, irmão de Marlene. Manuel fez questão ainda de pagar todas despesas com a partilha, o advogado, o cartório, todos os impostos de transmissão e fez questão que não houvesse nenhum registro, nenhuma formalização de usufruto em vida destes bens que ele estava repassando antecipadamente aos filhos. Os filhos é que fizeram questão de deixar claro de forma verbal para ele que iriam obedecer este usufruto das suas propriedades enquanto fosse vivo. Na partilha Manuel obedeceu ao raciocínio de dividir todos os bens por nove, sendo oito filhos mais Amaro que era afilhado de Da. Dora e irmão de Das Dores atual companheira, que ficou com uma parte um pouco menor, por decisão de Manuel e sem nenhuma objeção dos herdeiros. Os filhos de Da. Dora ficaram coma Liberdade, dividida em partes, a casa e o apartamento e os filhos de Das. Dores com a Fazenda da Demanda que fica em frente da casa que hoje mora com Das Dores e ao lado da filha Creusa recentemente viúva em função da morte do esposo João Batista Rangel.

As relações entre os filhos das duas companheiras não eram próximas, mas, nunca foram de conflitos. Entre os homens eram mais amigáveis e é compreensível pela cultura que assim tenha sido. O início da relação com Das Dores se deu ainda quando ela, filha de seu principal auxiliar nos negócios no sertão Manuel Pequeno, veio para a cidade ajudar na criação das crianças quando Emilton era pequeno.

Manuel fala com orgulho da boa relação hoje existente entre seus filhos das duas diferentes companheiras que possuiu: “também então eu estou vivendo ainda porque, se vê não é uma coisa, as pessoas serem bem atendidas e não ter separação, porque eu vejo aí irmão com irmão que não se unem e aqui não são irmãos legítimos e todo mundo une. Então é uma coisa que a gente fica satisfeito, porque é raro, isto é um acontecimento na própria família um não ter problema com outro. Aquele negócio de Waldemiro foi uma surpresa para mim, porque Waldemiro sempre foi um homem inteligente esteve no meio de política, sabia tudo, nunca me esqueço que um dia ele chegou aqui, eu disse para ele que eu tinha repartido as terras e não tinha pegado o usufruto ele disse que eu era doido, que não devia ter feito”.


Manuel do banco à beira da estrada aos almoços de domingo em família
“o que adoece as pessoas é o aborrecimento”

Não posso deixar de lembrar o dia em que Manoel Estevam, meu avô, opinou sobre algo que jamais esqueci. Todos os que o conhecem sabem o quanto ele gosta de uma prosa, de uma conversa. A gente tem o sentimento de que ele sempre tira muito das conversas em que o interlocutor desavisado acaba achando que sabe mais do que ele, quando na verdade, a sua capacidade de ouvir e perguntar mais do que falar produz exatamente o inverso disto. Quando conversávamos sobre assuntos do cotidiano, dos quais não mais lembro por não ter herdado os genes da sua memória prodigiosa, ele afirmou: o que adoece as pessoas é o aborrecimento.

Esta expressão me ajudou a compreender os porquês de uma série de iniciativas que tomou ao longo de seus últimos anos. Um homem com noventa e três anos de idade portando a saúde que tem, mostra não só a presença dos desígnios de Deus, mas também os caminhos que foi escolhendo para sua vida ao longo deste período. Por certo, o entendimento descrito naquela frase serve como uma diretriz do seu cotidiano. Junto a isso, o fato de ter decidido se afastar do centro urbano reflete mais uma das decisões de procurar levar uma vida que não seja isolada, até porque pelos meios de comunicação que tanto gosta, hoje tem mais acesso a informações do que na época que chegou de mudança para o sertão.

Há cinco anos sofreu às vésperas do natal de 1998 um problema intestinal que gerou a necessidade de uma intervenção cirúrgica bem assimilada pelo organismo. Permaneceu por duas semanas internado no Hospital dos Plantadores de Cana, tendo alta no dia seguinte ao natal. Confessou, ao retornar à casa que tinha tido dúvidas se teria saúde para romper o ano, e mais, via como distante a virada do século. Rompeu com saúde as duas datas e ainda a passagem de 2000 para 2001 que segundo alguns é quando se dá a verdadeira passagem do século.

Até pouco tempo atrás fazia uso sem restrição da mesma alimentação da época mais jovem, inclusive com o uso de gordura de porco no tempero da sua comida. Hoje por sugestão médica, de que se até agora isso não lhe trouxe problemas, melhor seria se pudesse poupar o organismo para outros enfrentamentos que todos nós com o passar dos anos vamos temos que enfrentar. Desconheço outras proibições médicas na sua alimentação.

A limitação que tem sido obrigado a conviver é a da redução da visão. Reclama das limitações que esta redução produz, mas é uma reclamação recheada de compreensão de que o avanço da idade impõe alguns desafios que se é obrigado a conviver. Os demais sentidos tão aguçados nos quem possuem a deficiência total da visão é comum em quem tem menos idade, mas no seu caso produz igual compensação identificada na audição, na memória e parece que principalmente na capacidade de realizar interpretações abstratas e complexas sobre o modo de ser das pessoas e do movimento do mundo ao seu redor. Não se esqueça que o acompanhamento diário das notícias do rádio e da televisão lhe permite dialogar sobre o aumento do preço do barril de petróleo, passando pelas eleições americanas até aos resultados produzidos pela viagem do presidente Lula à China.

Além do convívio com os parentes e amigos, apenas os mais novos, pois, a maioria dos seus contemporâneos já é falecida, ele gosta de ver o movimento passar em direção à nova cidade de São Francisco do Itabapoana. Desta forma, ficou conhecido como o dono do banco. Na verdade o banco, embora tenha até pouco tempo atrás negociado transações financeiras, o banco referido ainda não é o da praça, mas um banquinho de madeira defronte à Liberdade. Por ali, passaram políticos, prefeitos, fazendeiros e humildes trabalhadores da região. A prosa tem hora marcada pela manhã ou na parte da tarde depois da “siesta” que segue o almoço. Nos dias atuais a freqüência do banco se reduziu, mas não foi abandonada. Pela redução da visão também preferiu trocar o lado do banco para evitar atravessar a estrada, ocupando agora não mais o banco de madeira, mas o banco do ponto de ônibus que segue na direção de Travessão para São Francisco do Itabapoana.

Já nesta época em que gostava de prosear no banco, conversava muito com as professoras da Escola Estadual Josefino Barros de Menezes, localizada na estrada de Santa Rita, logo após sua residência. Enquanto as professoras aguardavam a condução para Campos, Manuel perguntava sobre o andamento do ensino, a falta dos alunos e aproveitava para criticar os professores faltosos que provocavam o aumento do desestímulo dos alunos. Vez por outra, como ainda dirigia, possuindo à época um veículo corcel del rey trazia algumas delas de carona, incluindo a namorada e atual esposa deste autor, Ildinha. Numa destas vindas a Campos, no início da década de 80, trazendo Ildinha como carona, já no final da manhã, já chegando à cidade sobre a Ponte General Dutra, foi surpreendido por um tiroteio. Apavorado inicialmente julgou ser barulho dos tiros do Batalhão de Infantaria sediado no local. Só mais tarde identificou que o tiroteio se dera entre o carro que vinha logo atrás do seu, dirigido pelo bandido “Luiz Gordo” e soldados da polícia militar. A polícia depois de seguir o bando desde o sertão tocaiou e metralhou o carro que vinha logo atrás do seu, atingindo e também matando uma professora que vinha de carona com o bandido. Assustado com a ocorrência Manuel Estevam teve dificuldades de continuar dirigindo até a casa da filha Eliete. O fato aliado à sua preocupação com a violência que já começava a ser vista no trânsito, acabou por contribuir por rarear e mais adiante interromper suas vindas à cidade como motorista.

Outro fato que merece realce é o seu prazer com o almoço dos domingos. Aguarda cada final de semana como uma criança espera o dia de Natal. Recebe com bom gosto todos aqueles que o procuram não apenas no sábado ou domingo, dias mais comuns para as visitas, mas também nos demais dias da semana. Cada visita é acompanhada, antes ou após as refeições, da prosa com a qual aproveita para se atualizar das informações sobre as pessoas, as famílias e sobre os fatos que rodeiam o agrupamento familiar da visita recebida.

Porém, especial mesmo é o almoço de domingo com os filhos. O filho homem mais novo Emilton freqüenta, com raras interrupções desde 1982 a casa de Santa Rita, mais especialmente os almoços de domingo. Emilton disse teve um estalo, sobre esse compromisso que assumiu abrindo mão de outros compromissos e lazeres e que não se arrepende de ter tomado esta decisão a partir de uma conversa que certa vez presenciou do seu pai com um amigo que não mais consegue identificar. O amigo do pai dizia que admirava os filhos que assumem compromisso dos encontros semanais com os pais. A partir desta conversa no banco em frente à Liberdade o almoço do domingo passou a ser a sua missa semanal. As irmãs Eliete e Eloísa só mais adiante quando perderam seus maridos, passaram em 2000 a freqüentar com a mesma assiduidade de Emilton o almoço de domingo que o pai Manuel tanto gosta. Reclama, sente falta e quer sempre saber o motivo das ausências nestes almoços.

Tanto nos almoços de domingo quanto nas visitas semanais, todos, parentes e amigos são unânimes em fazer referências à boa vontade e receptividade da sua atual esposa Das Dores que ajudou a criar um clima de cordialidade familiar que faz bem a todos que participam. O almoço com o gosto saboroso de comida ainda feita na lenha serve de petisco ao que verdadeiramente interessa que é o convívio com o líder da família. A presença dos filhos e netos com maior constância são motivos de alegria, porque é quando tem notícias dos outros parentes e até de trocar idéias sobre diversos outros assuntos que ele lança à mesa. Ultimamente, tem feito pedidos antes inimagináveis para quem sempre rejeitou comer fora dos lugares habituais, solicitar às filhas a feitura de algumas comidas diferentes para saborear no almoço de domingo.

É contagiante para todos perceber que este compromisso com o pai tem trazido imensas alegrias a ponto de algumas visitas menos informais sentirem uma certa inveja deste ambiente familiar. Acaba sendo a devolução da alegria, o mesmo sentimento, que Manuel Estevam tanto proporcionou aos filhos quando crianças e jovens. Toda essa emoção dos domingos, semana a semana não quer dizer que ele durante a semana seja alguém triste. Ele é muito bem tratado e sente muita confiança nos filhos do segundo casamento que o acompanham mais de perto na vida cotidiana, que no fundo é a mais difícil. Mas com certeza se complementa ao juntar os filhos e os grupos que fazem parte da sua história de vida. É interessante também deixar registrado a maestria como constrói um ambiente que lhe dê prazer e satisfação.



Religião
“Tudo dá numa porta só”

Manoel Estevam sempre teve muito respeito pelas religiões, mas sempre foi muito crítico das disputas entre os adeptos das religiões. Todos os seus filhos foram batizados e freqüentava a igreja católica, não com freqüência de devoto, mas como dizia, de acordo com as necessidades, as datas santas, os batizados e as missas dos amigos e parentes mortos.

“Religião, na minha idéia Ele é invisível, mas na religião tudo dá numa porta, só o ateu, diz ele, que não acredita em Deus. Tudo que fala em Deus é uma religião só! É um Deus só! Só tem um. Eu perdi um filho com 39 anos, eu estou aqui com 93 anos, você acha que quem quis isto? Foi Ele. Porque eu já falei da cartomante que chegou no açougue em frente a Ecival. Esqueci o nome do açougueiro, aí chegou um casal de andarilho, gente que andava, chegaram começaram a conversar, eles estavam sem tomar café. Ecival foi em casa pegou café, trouxe cigarro para ele, pegaram a conversar, pegaram a mão de Ecival, a família deve saber disso, pegaram a mão de Ecival e falaram que ia ter um problema cedo e a vida dele ia ser curta. Eles não acreditaram, pegaram a caçoar do casal que depois foi embora. A gente não sabe. Eu acredito nele. Eu rezo. Não sou de estar, nunca fui de estar todo dia na igreja, mas no momento que precisa, nas datas. Acho que a gente tem que pedir ajuda a Ele. Quando a gente vai dormir, na hora que acorda e nas horas difíceis tem que pedir ajuda, tem que pensar nEle”.

A presença de Deus em sua fala é constante, porém, não como os devotos que fazem questão de arrotar erudição religiosa. A reverência a Deus soa sincera, quando se refere a algum caso ou pessoa com quem não se sente bem pedindo desculpas antecipadas: “que Deus me perdoe”, ou ainda quando faz um balanço geral da vida entre perdas e ganhos: “mas o resultado do que a gente começou e do que terminou, eu agradeço muito a Deus pelo que ele me deu.”



A descrença atual com a agricultura, a visão da política e o senso de justiça
“Banco hoje não conhece mais ninguém”

Não foi fácil ouvir Manoel Estevam sobre alguns assuntos. Não pediu reserva para nenhum deles, mas absolutamente só falou sobre o que quis. Talvez, nunca tenha dado entrevista para jornal, mas, mostrou o que a experiência pode ajudar a conduzir uma conversa para onde se deseja. Queria falar sobre as dificuldades que teve no relacionamento com a avó do entrevistador e também seu neto. O entrevistador pretendia passar ao largo desta questão, mas não conseguiu.

Ao perguntar sobre dá onde adquiriu o senso de justiça, de trilhar pelos caminhos considerados corretos, enfocou com profundidade o assunto, como se quisesse deixar a sua versão sobre fatos que sempre são difíceis de explicar na relação entre casais e sobre decisões que cada um de nós acaba por tomar em diversos momentos da nossa vida.

Por conta da maneira como tratou o assunto, ao invés de fazer um relato como nos demais capítulos sobre os temas escolhidos para esses “fragmentos” da sua biografia, foi feita a opção por apresentar o texto sob a forma de entrevistas de maneira original, para que o leitor deste álbum de família, possa verificar com maior veracidade ainda a extrema capacidade que um homem de 93 anos tem, de não só manter ereta e firme a memória de sua vida, como a de, com argumentos fortes e consistentes, desafiar o neto entrevistador a respeito de assuntos complexos e atuais como a economia e a política. O autor não se julgou competente para escolher e organizar trechos destas falas e desta forma, sem preocupação metodológica com aquilo que os acadêmicos chamam de “história oral”, passar para quem se interessou em ler este texto, um pouco da história e do pensamento de um homem que, embora pouco letrado, desenvolveu de maneira, até inexplicável, uma forma de ver o mundo e de viver com dignidade e respeito.

Entrevista feita no dia 21 de novembro de 2004:
(24 dias antes de completar 93 anos de idade)

(P) O que aprendemos com o senhor foi esta questão da seriedade e do senso de justiça. Quero saber como o senhor pegou isso?

(R) Eu peguei porque achei que a sua avó reclamava muito, reclamava comigo, numa parte ela tinha razão e na outra ela não tinha. Porque da onde ele veio eu também tinha vindo e chegar aonde nós chegamos antes dela morrer não é para qualquer um. Porque quando ela casou não levou nada, foi coisa insignificante, o que não me fez grande diferença. Mas eu segui a vida e a gente tem que agradecer no final o que a gente recebeu. Então ela que morava na roça numa vida privada, vida junto dos pais, naquele sistema antigo e então ela chegar a ponto da gente fazer uma casa na cidade? Ela depois criou os filhos fez a obrigação dela, mas também eu fiz a minha. Nunca faltou empregada, nunca faltou um crédito, as coisas eram diferentes de hoje conforme seu pai quando foi para fazer aquela casa foi com muita dificuldade, foi preciso apanhar dinheiro emprestado que eu não tinha condições de pagar os juros para ele, ele que teve que pagar. ...eu vinha para a roça, mas não deixava de ir sexta-feira não, carregando uma coisa, carregando outra. Houve umas coisas aí que desemcabestrou um pouco foram as amigas dela, porque chegaram e ficavam falando que você está se sujeitando a isso, aquilo... ... mas a gente não adianta tocar nisso, mas o resultado do que a gente começou e do que terminou eu agradeço muito a Deus pelo que ele me deu.

(P) Mas eu falei da preocupação do senhor em fazer as coisas certas, de não se envolver em coisas erradas?

(R) Eu sempre fiz questão de andar direito de fazer as coisas direito, porque fazendo direito não tinha erro. Fazia isto porque primeiramente ela dizia que eu ia deixar os filhos na estrada, que não ia deixar nada para os filhos. Aquilo me doía quando ela falava. Eu sempre trabalhei a benefício da família, todo sacrifício, toda economia que eu fiz, eles se enganavam que eu expandia dinheiro. Eu não fui gastador de dinheiro não. Mulher para levar dinheiro meu era muito difícil. Porque eu tive amigos que ficaram na estrada por ser bobo. Porque o amigo tem sua família, ele pode dar seu passo para fora, mas ele tem que pensar que mulher por fora gosta dele não, gosta é do recurso dele. Então eu sempre pensei isso de terminar e repartir porque eu não recebi herança, então eu poder deixar que era isso que eu pensava e a conversa de Ecival, aquilo me encasquetou porque eu achava que era isso mesmo, para me libertar porque quando eu não tinha carro, eu tinha uma charanga eu estava na frente da catedral e o sujeito passava num carrão daquele e parava o carro e me chamava para ir na sua fazenda. Eu ficava pensando, será que eu vou ter na vida condições para ter um carro desses? Eu não tinha inveja não, mas cheguei a ponto de possuir, de fazer casa na cidade, de comprar apartamento no Rio, comprar fazendas, vender fazendas, andar direito, ter créditos nos bancos que nunca deixei um título meu ir para cartório, foi um orgulho para mim.

Aí tem esse casal de filho daqui, eu apanhei isto aqui. Eu manobrei, consultei os travesseiros, achei que a propriedade podia repartir para quatro, a casa era para um, o apartamento era para outro e aqui reparti para os dois filhos naturais. E tirei um alqueire lá da ponta, tudo de minha idéia porque ninguém forçou a fazer isso não e também não me proibiram não. Porque o que eu fui só proibido foi que eu tirei para Almeida aqui e ele exigiu a casa. Que foi até bom, não foi mal não, esta divisão. A parte daqui que eu botei do mais velho para o mais novo e Joemio veio a mim e disse que Eliete, se pudesse queria a parte na beirada da estrada porque a mãe dela morou e aí conversei com Emilton e falei para ele trocar a parte dele com a parte cá, mas não houve problema nenhum não.

(P) A dificuldade que é hoje tocar a agricultura, tocar a terra, os custos...

(R) O crédito de hoje é o sujeito estar labutando e um querendo furar o olho um do outro. Furar um dele para ele furar dois do outro. Porque de primeiro o sujeito emprestava o dinheiro, mas aquilo era por contemplação para ver o cidadão seguir e hoje não tem mais isso. Banco hoje não conhece mais ninguém. Governo só está se incomodando com ele e mais ninguém. Todo mundo discute o país, mas na agricultura você não vê discussão. Eu não acho que tem saída para agricultura porque a parte mais difícil continua cada dia com mais sacrifício é o do homem. As máquinas isso toca até certo ponto, mas não toca tudo. No tempo que trabalhava na capina, na enxada e tocava o boi no arado a vida era outra coisa. Hoje é muita gente para dizer uma coisa só e o principal não tem é gente, porque o sujeito hoje não quer trabalhar para você não. Ele acha que é desaforo e naquela época ele vinha trabalhar achando que a gente estava fazendo benefício a ele. Eu tive uns quinze colonos meeiros dentro do que é meu, casa, casinha de palha. O sujeito pedia para fazer uma casa ia ao mato tirava umas madeiras, fazias a casa, morava, ia embora não dava problemas. Hoje como pode você ter uma propriedade e botar a pessoas para dentro? Só você que conhece os direitos é que pode ...

(P) O senhor acha que o problema não é vender o produto da lavoura? Ou o problema é arranjar gente para trabalhar que é o mais difícil?

(R) Olha esse negócio aí de Garotinho, de frutas, todo mundo que apanhou dinheiro aqui emprestado, ta tudo arrebentado. Ou eles não vão pagar, se não pagar vai ter a propriedade penhorada, você espera para ver o que vai acontecer.

(P) Hoje tem mais gente e precisa produzir mais?
(R) A força de vontade de trabalhar diminuiu.

(P) Mas o Brasil não produzia antes uva, maçã e hoje produz... o senhor acha que o problema está aqui na região?

(R) O Brasil faz e compra mais caro e fica mais caro. O que aconteceu com a gasolina? Quando não produzia aqui era mais barato. O preço do litro era 400 réis, depois que passou o país passou a produzir gasolina ta isso aí. Você acha que tem condição de ter combustível pelo preço que está... nada tem tendência de melhora?

(P) Mas o preço aumentou também lá fora?

(R) É mas aqui também está acompanhando o preço. Eu acho que aqui tinha que vender mais barato.

(P) Mas aqui produz no mar, ficando mais caro...

(R) Mas você não acha que a retirada deste dinheiro que dá para as prefeituras e gasta a toa aí, será que não colocasse para melhorar o preço da gasolina o país não tomava um rumo não?

(P) Essa é uma pergunta boa. O Brasil ainda não produz tudo que consome, eles prevêem para ano que vem empatar o que produz e o que consome.

(R) Então se fosse... eu acho que uma prefeitura como Campos receber um milhão de dólares, por dia ou por mês? Mas vamos botar por mês ... essas prefeituras não viveram a vida inteira desde que eu me entendo com a renda que a prefeitura arrecadava sem precisar disto? É uma desorganização ou não é? E torna ficando mais difícil, você não está vendo o Lula entrou você assistiu esta noite o repórter? Um debate do PMDB. O Lula querendo apanhar o PMDB e o PMDB botando banca com ele, que quer posição, quer vantagem. Eu sou grego, mas eu fico apanhando e entendo isso, porque você acha que tem cabimento isso. Ele como presidente da república se humilhar é a mesma coisa de você ser patrão e se humilhar ao empregado, heim? Não é difícil não? Não é só o PMDB não é uma porção de partidos. Agora se o país um dia pensar em ter dois candidatos ao governo, um da oposição e outro do governo como era, ou você votava no governo ou votava na oposição, mas quantos partidos têm? Você acha que os vinte e setes que tem, vai haver acordo? hum! hum!

(P) O senhor acha que o país tem jeito, ele pode melhorar?

(R) Não acho. Não acho porque eu não vou alcançar. Na minha era não.

(P) Mas o senhor falou que as coisas por um lado estão mais fáceis que antes, por um lado...

(R) Por facilidades que o sujeito quando eu vim para aqui ele morria lá no meio do mato, ele saía na padiola, saía com as alças do caixão no meio da picada para tirar o sujeito para levar para o cemitério, era no carro de boi, era o carro encourado para levar para o cemitério, enterrava no chão e hoje a coisa se modificou. Mas, em outras coisas piorou porque você engordava um porco, você matava tinha que repartir com o vizinho, emprestar um quarto a um, outro quarto a outro, botar dentro da banha porque aquilo era uma fatiada e hoje esse negócio de resfriador. Porque depois que veio a geladeira acabou com o país. Porque de primeiro você tomava água quente, você vê, chegava ali no brejo a água estava correndo você apanhava a mão aberta assim e bebia a água e não tinha nada. Hoje todo mundo quer, o Brasil todo quer água encanada, ninguém quer mais água de cacimba. É o que isso?

(P) A água das cacimbas estão todas contaminadas com esgoto, com remédio da lavoura...

(R) Eu até concordo, porque também não havia o remédio. As coisas têm de ser lembradas dessa forma, o remédio...

(P) Quando o senhor nasceu a população do Brasil era de ... tenho que ver ...

(R) Era capaz da cidade de Campos ter hoje, deve ser mais um pouco. Quando eu vim para aqui isso era sertão, se falava sertão, lá do alto sertão.

(P) O senhor acha que mudou para município de São Francisco de Itabapoana melhorou?

(R) Eu acho que melhorou. Melhorou um pouco. Mas o administrador eu acho que piorou. Porque parece que quando era uma cidade só, a roubalheira era menos, quando tinha menos dinheiro a roubalheira era menor. Hoje a roubalheira está muito pior. Não é possível dividir este município em dois, duas prefeituras e ainda haver uma reclamação, um desentendimento do jeito que há... é o que Sr. Waldemar Lemos que morava aqui em Morro Alegre, a mulher pegou para ter criança, a parteira veio não teve jeito, ele selou dois cavalos, isso ele contava, saiu selou dois cavalos, saiu um puxando o outro cavalo tocou para Gargaú, de lá atravessou no bote chegou na casa de caboclo Machado que era o médico aqui do sertão, ele não estava pegou a esperar, até que chegou de canoa para fazer o parto. As coisas eram muito mais difíceis, mas havia ajuda, hoje a mulher não quer ter mais filho, a criança nasce com oito meses, sete meses se quiser... mulher não quer ter mais filho não...

(P) Neste entendimento hoje, o senhor acha que Getúlio foi o melhor presidente para o país?

(R) Podia não ser o melhor para o sujeito que andava errado, porque era tempo da ditadura. Você sabe que na ditadura os presos iam para a Ilha Grande, agora vão para lá para passear. Na época se dizia que não ficava no presídio, mas também não podia sair de lá.

(P) Mas apesar disto tudo, o senhor acha que ele foi o melhor político que já se teve?
(R) Eu acho que ele foi muito leal. Ele morreu por querer ser tão direito. Porque as vezes não é o político que é mal intencionado, são as pessoas junto dele. Você sabe lá como é como Marinszinho fazia para apanhar cana na roça ele xingava o trabalhador e o trabalhador xingar ele? Tenho uma coisa que eu sempre reclamei com sua avó porque nunca aconteceu comigo. Empregado eu reclamava com ele, se ele não me respondesse daí a pouco eu esquecia, mas se ele respondesse, ele não ficava mais. Mas sua avó com a empregada ela discutia dentro de casa como se fossem duas patroas. Eu não admito isso.

Nas falas de Manuel Estevam é possível identificar a experiência que acumulou. Sem sair do estado onde nasceu e viveu tem uma visão de mundo que letrados e viajados muitas vezes não conseguem desenvolver. Estes depoimentos serviriam para os atuais neurolinguistas pesquisarem o desenvolvimento das concepções de mundo a partir da realidade em que se vive.


Vida com V maiúsculo
“A tranqüilidade relativa para quem travou o bom combate!”

É impossível que possa registrar em quatro entrevistas-conversas, havidas antes e após os almoços dos domingos dias 7, 14, 21 de novembro e 12 de dezembro de 2004, toda uma vida que como se viu até é repleta de fatos. É impossível que em trinta dias com sete fitas gravados com o nosso personagem e com seus filhos Eliete, Ecival, Emilton, Eloísa e mais Creusa se consiga traduzir a expressão e os sentimentos presentes em 93 anos de existência. Os próximos anos que virão pela frente para que possa superar a marca de um século de existência, servirão de oportunidade para aproveitar esta mente e, principalmente, esta memória brilhante de Manuel Estevam, para complementar e, eventualmente, corrigir as falhas que a memória deste seu descendente em segunda geração tenha cometido ao registrar fatos, números e datas descritas sem auxílio de nenhuma anotação a não ser a sua esplêndida memória.

“Pode cavacar mais” foi a expressão que ele usou para me incentivou a puxar ainda mais pela sua memória. Muito ainda há que se cavacar. Espera-se que outros descendentes, inclusive da sua irmandade, possam também registrar fatos e passagens da família iniciada por José Estevam de Moraes. A intenção do autor destes fatos, seguindo o conselho de que o inimigo do bom é o ótimo, foi a de ainda em vida e conhecer o significado que as suas ações, atitudes e valores trouxeram para seus amigos e descendentes.

Tentou-se aqui fixar os registros na esperança de guardá-lo de forma talvez definitiva na memória daqueles que se interessem em conhecer a trajetória, não só de um personagem e sua família, mas de forma horizontal os costumes, a cultura e a vida de uma geração que habitou esta região do início ao final do século passado. E como já foi dito na introdução destes registros, este não é o registro da história das autoridades locais, porque esta história oficial muitas vezes repleta de vaidades e até inverdades, mas, é o registro ao mesmo tempo em que é humilde e real é, acima de tudo, o registro de uma pessoa que ao final da vida tem o que contar.

Como depôs o filho Emilton com dificuldade pela sua conhecida emoção: “teve um grau de instrução baixo e não foi um homem que fez fortuna, mas chega a uma velhice tranqüilo e com dignidade. Não vive num conforto porque não gosta disso, mas deixou herança para os filhos, fez questão de ajudá-los e criá-los com exemplos e o maior conforto possível”. O outro filho Edalmir, também emocionado e contemplativo em relação aos bons tempos arrematou: “papai foi tudo que a gente esperava de um pai, não tenho queixas, foi tudo aquilo que se pode desejar de um pai. As marcas principais que deixa é o exemplo de vida, a honestidade e a correção nos negócios. Fora as mulheres, mulher aí é diferente, negócio de mulher aí é totalmente diferente, porque eu só tenho umazinha só e aí o velho foi safadinho, eu também fui safadinho só que em solteiro”.

Eloísa ressalta que o pai deixou para ela como exemplo é o valor da palavra: “que a palavra que a pessoa dá vale mais do que dinheiro, isto eu aguardo, então a minha palavra é a minha palavra e mais nada”. Eliete hoje como a filha mais velha viva de Manoel Estevam valoriza outros valores que para ela marca sua trajetória: “o que eu guardo de papai é o exemplo que ele deixou para a gente de humildade, de honestidade, de amor e desta união com a família, que eu acho que é uma coisa muito importante, não há riqueza maior do que a gente ter uma família unida. Eu acho que nós somos muito ricos porque somos unidos e temos a alegria de ter o nosso pai, isso é um orgulho ter nosso pai com 93 anos para os filhos, netos e bisnetos”. Creusa e Carlinhos mais próximos no dia a dia do pai demonstram mais com gestos, que com palavras, o sentimento de respeito e carinho que nutrem pelo pai.

Nos negócios teve momentos bons e ruins. As coisas no campo tiveram para Manuel Estevam dois períodos melhores. Interessante observar que na história dos negócios das pessoas normalmente tem muita época de trabalho e dedicação, sem que os resultados apareçam de forma visível e em determinado momento os cenários se ampliam e se abrem mostrando os resultados. Na vida de Manuel Estevam, ao ver sua trajetória é possível perceber que o primeiro salto se deu em 1941 e 1942 e o segundo na década de 1970 quando seguindo conselho do filho homem mais velho Ecival, só concretizado após sua morte resolveu ter uma reserva para viver com tranqüilidade.

Tem poucas queixas. Tem profundo amor pela vida, lamenta a velhice relembrando a reportagem da TV onde de ouvido atento soube das centenárias palmeiras que caíram no Rio de Janeiro e afirmou: “elas só caíram porque estavam velhas e quando se está velho e adoece, se tem duas doenças: a doença e a velhice”. Não gosta de ser enganado pela realidade com a qual sempre encarou todos os desafios que enfrentou. Ainda continua crítico e cobrador com os filhos. Quer ver os seus valores mantidos pelos descendentes da família, embora, compreenda que a vida de hoje seja muito diferente de antes.

Mantendo as suas características não podia deixar finalizar esta publicação sem questionar este neto insistente entrevistador de quatro domingos quase consecutivos, provocando desta forma uma inversão dos nossos papéis. Disse que teria apenas uma pergunta: pediu que fizesse uma análise, uma avaliação que levasse em conta o que ele viveu, de ter saído de uma época de caçar passarinho, preá e frango d’água para comer; uma época que não havia médico por perto e os farmacêuticos eram poucos e que desta forma, já diferente da dele, criou os filhos que estudaram, arrumaram famílias, netos - perto de ter tataraneto - de produzir uma família que chegou ao ponto que chegou, com todo este tronco indagando, o que pode suceder deles? Qual será o futuro deles? O que será que eles daqui a 90 anos vão contar? Diz ter dúvidas se eles vão querer fazer isto que este neto está fazendo e arremata com a pergunta: “será que tudo isso hoje é mais fácil que antigamente?”

Não me atreverei em responder tais indagações, mas posso dizer que o pouco que aqui foi compilado de sua vida responde pelo todo que marca a sua trajetória entre nós. Quiçá, as novas gerações possam ao analisar os presentes anos, situar a cada um de nós no mesmo patamar do precursor deste tronco genealógico. Sem mais delongas e lero-lero com o qual sempre detestou ser respondido, afirmo sem medo de errar que, Manuel Estevam lutou o bom combate como disse o apóstolo Paulo. Acertou e errou como todos os humanos. Enfrentou adversidades e foi contemplado com resultados. Assimilou valores e construiu uma ética traçando limites para sua vida de patrão e comerciante do qual chega ao final da vida em condições de se orgulhar e de se desejar como exemplo para seus descendentes. Como neto e acredito poder falar em nome de todos, assim como os filhos de suas duas comunhões, quero através de uma expressão simples e importante como ele bradar em alto e bom som: parabéns e obrigado pelo belo exemplo de vida que nos deixou como legado, nosso e sempre nosso, querido Manuel Estevam de Moraes, Vô Manel!

16 de dezembro de 2004 - São Francisco de Paula

93° aniversário de Manuel Estevam de Moraes

Roberto Moraes Pessanha






Referências bibliográficas:

ACRUCHE, Roberto Pinheiro. Apontamentos para a História de São Francisco do Itabapoana. EdG, Editora Gráfica Ltda., Rio de Janeiro, 2002.

BARCELOS, Álano. A Linguagem da Baixada Goitacá, Editora Lucerna, Rio de Janeiro, 1992.

CARVALHO, Waldir P.. Campos depois do Centenário, Volumes 1 e 2, Campos dos Goytacazes, Damadá Gráfica e Editora, 1991 e 1995.

CARVALHO, José Cândido. Olha para o céu, Frederico! Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 4ª Edição 1974.

CARVALHO, José Cândido. O Coronel e o Lobisomem, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 18ª Edição 1975.

LAMEGO, Alberto Ribeiro. O Homem e o Brejo. 2ª Edição, Ed. Lidador, Rio de Janeiro, 1974.

PINTO, Jorge Renato Pereira, O Ciclo do Açúcar em Campos. Erca Editora, Ro de Janeiro, 1975.

SILVA, Osório Peixoto. 500 anos de Campos dos Goytacazes. Ed. Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Campos dos Goytacazes, 2003.

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